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HISTÓRIA DO BRASIL

Livro sobre bastidores do Brasil Nunca Mais será lançado neste sábado, 28, no Memorial da Resistência

27 de março de 2026 - 14h11

Por Lúcia Rodrigues

O jornalista Camilo Vannuchi lança neste sábado, 28, às 14h30, no Memorial da Resistência, o livro Nunca Mais, com subtítulo: Os bastidores da maior denúncia contra a tortura já feita no Brasil.

Curiosamente a palavra tortura aparece riscada. Camilo explica: “É uma ‘brincadeira’ de design, porque remete à censura, a um tempo em que a palavra não poderia ser publicada, e acaba sendo também uma referência aos algoritmos das redes sociais de agora, que derrubam o alcance de publicações com certas expressões”.

A ideia de publicar uma obra que contasse os bastidores do Brasil Nunca Mais, lançado em 1985, e que envolveu em torno de 30 pessoas em todo o processo que culminou na publicação que permaneceu por 91 semanas consecutivas entre os 10 livros mais vendidos no país, várias delas em primeiro lugar, surgiu no ano passado, data da efeméride de quatro décadas do livro, quando Camilo também lançou o podcast Nunca Mais (ouça ao final).

Além dos personagens centrais dessa empreitada, Camilo também queria dar voz aos anônimos do projeto, por exemplo aqueles que xerocaram os processos que eram retirados do STM, o Superior Tribunal Militar, em Brasília, pelos advogados Luiz Eduardo Greenhalgh, Eny Raimundo Moreira e Sigmaringa Seixas.

Os três eram advogados de presos políticos e podiam retirar os processos do órgão e ficar com eles por até 24 horas para análise dos casos.

A oportunidade para copiar as denúncias contra a ditadura militar surge nessa brecha.

Montou-se um pequeno aparato em Brasília com duas máquinas de xerox trabalhando a todo o vapor, para que os processos pudessem ser copiados e devolvidos dentro do prazo para não levantar suspeitas.

A denúncia revelou o nome de 444 torturadores e 242 locais de torturas. “O que mostra que a prática da tortura era uma política de Estado, institucionalizada”, frisa Camilo.

Ele cita o caso em que até mesmo uma jiboia e um jacaré foram utilizados para aterrorizar presos políticos, além dos inúmeros instrumentos de tortura presentes em todos os centros de tortura, como o pau de arara e a cadeira do dragão.

O pai de Camilo, o ex-ministro dos Direitos Humanos Paulo Vannuchi, também um ex-preso político torturado pela ditadura militar, é um dos que liderou o projeto Brasil Nunca Mais desde o início.

“A Eny (Raymundo Moreira) estava com a ideia fixa de que os processos contra os presos políticos iriam desaparecer. Ela era presidente nacional do Comitê Brasileiro pela Anistia e trabalhava com (o advogado) Sobral Pinto, no Rio. O Sobral achava que (os militares) iam queimar tudo, como na ditadura do Estado Novo, porque denunciavam os torturadores. À época, ele conseguiu copiar os processos do (Luiz Carlos) Prestes, porque era seu advogado, mas os dos outros (presos) desapareceram”, revela.

Mas para que a ideia se tornasse uma publicação e chegasse às prateleiras de milhares de livrarias espalhadas pelo país em 1985, muitos obstáculos tiveram de ser superados.

Para um projeto dessa envergadura era necessário, inclusive, financiamento.

D. Paulo Evaristo apoiava integralmente a proposta, mas não tinha recursos financeiros para doar à causa.

Sugeriu que se procurasse o pastor presbiteriano Jaime Wright, ligado ao Conselho Mundial de Igrejas, que anuiu no apoio à empreitada e buscou os recursos no exterior.

Com o financiamento garantido, ainda era preciso fazer o dinheiro chegar ao Brasil de forma clandestina.

O elo da cadeia dessa rede de apoios para que a denúncia contra a ditadura militar tivesse os recursos necessários se fechava com o ativista Charles Harper, que trouxe o dinheiro do exterior em uma pochete doleira presa à cintura nas viagens aéreas.

O código usado ao chegar ao Brasil para se comunicar com os membros do projeto e driblar os arapongas que eventualmente ouvissem o diálogo ao telefone era: “Acabei de chegar da Suiça e trouxe os chocolates”.

A preocupação com a segurança da documentação copiada, no entanto, persistia.

O local onde os membros do projeto armazenavam a documentação em São Paulo mudou algumas vezes de endereço por suspeitas de que a ditadura pudesse ter descoberto alguma coisa que colocasse a denúncia em risco. O primeiro espaço a sediar os trabalhos da equipe foi o Instituto Sedes Sapientiae, em Perdizes, na zona oeste da capital paulista.

Para preservar a denúncia, algumas pessoas começaram a escoar clandestinamente para Genebra, na Suíça, os microfilmes com os processos. Com isso, era possível manter em segurança uma cópia dos relatos que denunciavam a ditadura.

Tudo era feito clandestinamente, as pessoas envolvidas nessa empreitada não comentavam o assunto com ninguém, nem mesmos os  familiares sabiam no que estavam envolvidos.

Foram cinco anos de árduo trabalho.

A primeira compilação dos 707 processos com um milhão de folhas resultou em seis mil páginas e foi apresentada a D. Paulo Evaristo, que teria respondido que era muito longo e que precisava ser reduzido para 300 páginas, para ser efetivamente lido pelas pessoas.

É aí que entram em campo Frei Betto e o jornalista Ricardo Kotscho ao lado de Paulo Vannuchi, para editar o material que se transformaria no Brasil Nunca Mais.

O ponto final na edição foi dado por Vannuchi no feriado da Páscoa de 1985, segundo Camilo, que à época era criança, havia nascido em 1979. Sem saber do que se tratava, participava de um importante capítulo da História do Brasil.

“Cresci achando que a democracia estava consolidada”, reforça. Mas de 2014 para cá, essa confiança se esvaiu. Ele ressalta que a impunidade contra os torturadores que agiram durante a ditadura militar dá garantias para que tentativas de golpes como de 2023 ainda pairem sobre o Brasil.

Além do lançamento no Memorial da Resistência neste sábado, já há mais quatro datas agendadas em São Paulo, Ribeirão Preto, Petrópolis e Campinas (confira no card)

Em Campinas, a Unicamp foi o local escolhido. O encontro vai acontecer no dia 8 de abril, no auditório Marielle Franco do IFCH, o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

 

Ficha técnica

Livro: Nunca Mais – Os bastidores da maior denúncia contra a tortura já feita no Brasil

Autor: Camilo Vannuchi

Prefácio: Jamil Chade

Ilustrações: Mônica Vaz

Editora: Discurso Direto

Páginas: 240

Acabamento: Capa dura

Preço R$ 99

Serviço

Quando: Lançamento neste sábado, 28, às 14h30, e debate com Frei Betto e Vera Paiva.

Onde: Memorial da Resistência – Largo General Osório, 66, Santa Ifigênia, no centro da capital paulista. É possível acessar o Memorial diretamente a partir da estação Luz do Metrô e da CPTM sem ter de sair para a rua.

 

Ouça a seguir o trailer e os cinco episódios do podcast Nunca Mais.

Trailer – Nunca Mais | Podcast on Spotify

Episódio 1 – Antes que seja tarde – Nunca Mais | Podcast on Spotify

Episódio 2 – O homem que copiava – Nunca Mais | Podcast on Spotify

Episódio 3 – Conhecereis a verdade – Nunca Mais | Podcast on Spotify

Episódio 4 – É tudo mentira! – Nunca Mais | Podcast on Spotify

Episódio 5 – Sem anistia – Nunca Mais | Podcast on Spotify

 


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