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12 DE ABRIL

Guerrilha do Araguaia completa 50 anos, mas até hoje Exército não entregou corpos de guerrilheiros executados

Painel com o rosto de alguns dos guerrilheiros executados pelas Forças Armadas. Ao final do artigo, veja cartaz completo

09 de abril de 2022 - 10h57

Araguaia: uma guerrilha com cinquenta anos de história 

 

Por Osvaldo Bertolino 

Os combates no sul do Pará entre os guerrilheiros do Araguaia e a ditadura militar começaram em 12 de abril de 1972. Um grupo de 20 soldados do 2° Batalhão de Infantaria de Selva atacou o destacamento A, comandado por André Grabois.

Iniciava-se a primeira campanha da repressão. Dois dias depois, 15 soldados atacaram o Destacamento C, que conseguiu manter contato com a Comissão Militar, que avisou o Destacamento B.

Nessa troca de avisos, foi preso o primeiro guerrilheiro, José Genoíno Neto, que havia sido enviado do Destacamento B para o A. Estavam na região, 69 guerrilheiros, com boas reservas de alimentos, roupas, remédios e munição, mas com armas precárias.  

Surpreendidos pela ação resoluta dos guerrilheiros, os homens da repressão decidiram deixar o local em julho de 1972. O jornal O Estado de S. Paulo, de 19 de julho de 1972, publicou que as Forças Armadas estavam realizando a Ação Cívico-Social (Aciso) na região periférica à área de atuação da Guerrilha, principalmente no norte de Goiás.

A matéria repercutiu nos meios políticos e chamou a atenção por romper a feroz censura que o regime impusera sobre o assunto. 

Em 24 de setembro, o jornal voltou ao assunto, explicando como havia surgido a Guerrilha e relatando os combates que as Forças Armadas estavam promovendo. Relacionou dezenas de unidades do Exército, da Marinha, da Polícia Federal e da Polícia Militar do Pará, de Goiás e do Maranhão, totalizando 20 mil homens mobilizados contra os guerrilheiros.  

As operações foram comandadas pelos generais Antônio Bandeira e Olavo Vianna Moog. O centro das operações foi instalado na cidade de Xambioá. Segundo a reportagem, os guerrilheiros se movimentavam livremente na vasta região, à margem esquerda do rio Araguaia, situada nos municípios de São João do Araguaia e Marabá. 

A segunda campanha começou em setembro de 1972, com um contingente de oito a 10 mil homens espalhados em bases montadas em fazendas e roças. Arriscaram uma entrada na mata, na área do Destacamento B, mas a tática usada foi a da emboscada, inclusive em casas de moradores locais.

As tropas militares também recorreram a helicópteros e aviões, soltaram três bombas na mata e recrutaram bate-paus. Tentaram, ainda, a rendição dos guerrilheiros em troca de recompensas, distribuindo boletins pela região com dizeres que procuravam abater o moral dos combatentes.  

Em outra frente, a pretexto de “documentar” a população local, montaram novamente a operação Aciso, que ficou conhecida na região como “operação documento”. Distribuíram remédios, fizeram consultas médicas e dentárias, usaram helicópteros e aviões para remover doentes.

Criaram também uma operação com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) que consistia em distribuir lotes e legalizar terras dos lavradores. 

Na segunda campanha, os guerrilheiros já estavam mais experientes. O conhecimento da mata era maior, o contato com a população mais consolidado e a preparação militar havia sido intensa.

Mas a ideia de tomar armas do inimigo para reforçar o poderio militar dos guerrilheiros ainda não dera resultado, continuavam com o velho e precário armamento do início dos combates.

Novamente recebidos por uma resistência decidida, em novembro de 1972 os militares optaram por deixar a região e preparar nova operação. 

Fase sinistra da guerra 

Os homens da repressão montaram, no período de trégua, uma grande rede de espionagem e investiram em obras de infraestrutura.

Agentes a serviço do Exército e da Polícia Federal infiltraram-se entre os moradores. Construíram quartéis em várias cidades, estradas foram abertas e outras melhoradas.

A Comissão Militar também aproveitou o período de calmaria para melhor preparar a Guerrilha. Foram distribuídos entre a população documentos, principalmente o Programa da União pela Liberdade e pelos Direitos do Povo (ULDP). 

Em 7 outubro de 1973, começou a terceira campanha, a fase sinistra da guerra, na definição de um padre da região. A primeira providência foi criar um vazio em volta dos guerrilheiros, com ocupações, prisões e torturas.

Quase toda a população masculina das localidades onde a Guerrilha atuava foi presa. Destruíram casas, paióis e pontos comerciais. Os homens da repressão montaram bases de operações no meio da mata, apoiadas por helicópteros, e instalaram um forte aparato de guerra.  

As forças militares mobilizadas para o combate final foram gigantescas. Postos da Polícia Militar instalados nas rodovias funcionaram como bases para as “investigações” das tropas do Exército, ajudadas por aviões e helicópteros da Força Aérea, lanchas da Marinha e equipes especializadas, como a Brigada de Paraquedistas, sediada no Rio de Janeiro, e o Comando de Operações na Selva.

O conceito das ações foi definido pela repressão como “guerra suja”, não havia regras para as perseguições.  

Moradores foram expulsos de casa e tiveram suas posses destruídas. Presos e cruelmente torturados, muitos foram executados.

Em Xambioá construíram buracos, conhecidos como “Vietnã”, para onde eram levados os suspeitos de ajudar a Guerrilha, uma grande parcela da população,  ali deixados por dias e noites, alguns pendurados de cabeça para baixo.

Foram mais de mil presos e torturados, segundo cálculos de Ângelo Arroyo, um dos dirigentes da Guerrilha.

O efetivo mobilizado superou o da tropa organizada na Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial.  

As operações abrangeram um imenso território em volta da área de conflito e em alguns pontos da floresta foram lançadas bombas Napalm, uma espécie de reagente químico largamente utilizado pelos militares estadunidenses no Vietnã.

À estratégia da segunda campanha, formulada pelos generais Antônio Bandeira, Viana Moog e Hugo Abreu, juntaram-se as colaborações do coronel do Exército português Hermes de Oliveira, veterano das guerras coloniais na África, e possivelmente ajudas de militares norte-americanos. 

Espírito da “guerra suja” 

O regime havia avaliado a dimensão do movimento guerrilheiro e chegado à conclusão de que era resultado de um planejamento estratégico do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Na definição do general Viana Moog, a Guerrilha do Araguaia foi “o mais importante movimento armado rural já ocorrido no Brasil, principalmente por ter sido mais organizado”.  

A convicção de que aquele movimento de resistência deveria desaparecer do mapa e da história foi firmada quando o Estado-Maior do Exército, sob o comando do general Orlando Geisel, reconheceu os fracassos das duas primeiras operações regulares, conforme atesta um relatório do Centro de Informações do Exército (CIE). Tomou-se, então, a decisão de desencadear a “guerra suja”. 

No início da operação, batizada de Sucuri, instalou-se na região um sujeito chamado Marco Antônio Luchini, enviado como engenheiro do Incra.

Era, na verdade, o major Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, ferrenho anticomunista que, em 1961, como tenente, foi preso por participar da trama que tentou impedir a posse presidencial de João Goulart.

No golpe de 1964, participou ativamente da conspiração e chegou ao CIE. Frio e sanguinário, ficou famoso na região por receber de pistoleiros cabeças, mãos e dedos decepados dos guerrilheiros para os quais pagava de 10 a 50 mil cruzeiros, conforme a importância política da vítima.  

Curió foi, possivelmente, a figura que mais encarnou o espírito da “guerra suja”. Leis e princípios que regem os conflitos militares e os direitos básicos do ser humano foram ignorados.

Com o fim dos combates, ele se estabeleceu na região, foi eleito deputado federal, dominou o garimpo de Serra Pelada à força e fundou uma cidade em homenagem ao seu nome, Curionópolis, no Pará.  

Em 25 de dezembro de 1973, Curió comandava a patrulha que, no final daquela manhã chuvosa, por volta das onze horas e vinte e cinco minutos, encontrou um grupo de guerrilheiros.

O major viu entre eles aquele que um relatório do CIE havia identificado como o comandante militar da Guerrilha. Destacava-se dos demais pela idade, estava com 61 anos de idade.

Maurício Grabois recebeu um tiro de fuzil no braço esquerdo, abaixou-se, puxou o revólver e revidou até ser atingido mortalmente na cabeça.  

No tiroteio contra a Comissão Militar naquela manhã de Natal, dos 15 guerrilheiros que estavam no grupo 10 sobreviveram. Mesmo com armas rudimentares, enfrentaram a soldadesca que atirava a esmo.

O revide possibilitou aos sobreviventes a busca de esconderijos na densa mata da Serra das Andorinhas. Os demais guerrilheiros, acampados em um local mais abaixo ou realizando tarefas nas redondezas, conseguiram escapar.  

Ângelo Arroyo saiu do Araguaia guiado pelo guerrilheiro Zezinho (Micheas Gomes de Almeida), o que melhor conhecia a mata. Segundo João Amazonas, ele possuía uma técnica especial até para pisar no solo, invisível na selva.

Arroyo escreveu importantes documentos sobre o heroico feito dos guerrilheiros. No começo de 1974, a repressão deu sua missão por encerrada. 

União dos brasileiros 

A ideia da resistência armada à ditadura militar por meio da guerra popular começou a brotar em agosto de 1964, quando a direção do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) aprovou a resolução, divulgada com o título O golpe de 1964 e seus ensinamentos, avaliando que o ocorrido era resultado dos avanços de um projeto estratégico dos setores mais reacionários internos, a serviço do imperialismo norte-americano. Era hora de procurar novas formas de resistência.  

Para discutir com mais abrangência a forma de enfrentar a ditadura, era necessário convocar uma Conferência, a 6ª, realizada em julho de 1966 em São Paulo, quando foram debatidas a situação política e a atividade partidária. 

A Conferência debateu e aprovou a linha política contida no documento União dos brasileiros para livrar o país da crise, da ditadura e da ameaça neocolonialista. 

Perigo sem precedente paira sobre o Brasil, sujeito a viver longo tempo sob o regime ditatorial, a ter seu desenvolvimento interrompido e a perder suas características de nação independente”, diz o documento. “Em tal circunstância, nenhum problema pode sobrepor-se ao objetivo de salvar o país desse perigo”. 

A certa altura do texto, o PCdoB apontou a guerrilha como uma das principais formas de luta contra a ditadura.

“A ideia de que é indispensável empunhar armas para libertar o país do atraso e da opressão vem ganhando força”, diz outro trecho do documento.

“A luta revolucionária em nosso país assumirá a forma de guerra popular”, definiu a Conferência. “As forças armadas populares, inicialmente débeis, crescem e tornam-se fortes e superiores às do adversário. (…) Sendo parte integrante do povo, têm nele a fonte de sua invencibilidade.”

A ideia contida no documento era a de realizar um intenso trabalho político e de organização popular, criando núcleos de combatentes, “no amplo emprego da tática de guerrilha e na criação de bases de apoio no campo”.

“Em toda parte, em especial no campo, é preciso discutir os problemas da luta armada e, guardadas as normas de trabalho conspirativo, tomar medidas visando à sua preparação prática”, diz o texto. 

Verde chão amazônico 

Com base nessa resolução da Conferência, o PCdoB saiu a campo à procura dos melhores lugares para instalar a guerrilha. O Partido criou três grupos de trabalho, um dirigido por Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, outro por Maurício Grabois e João Amazonas, e um terceiro por Carlos Nicolau Danielli. 

Para o PCdoB, a guerra seria prolongada. Pontos de apoio deveriam ser instalados em diferentes lugares.

O local que mereceria mais atenção seria o Araguaia, sul do Pará, divisa com os Estados do Maranhão e de Goiás (atual Tocantins), um vasto arco de serras verdes e terras férteis.

As levas de militantes enviados para o local passavam por avaliações dos principais dirigentes. Muitos estiveram na China, onde receberam instruções político-militares. 

O PCdoB começou efetivamente o trabalho no meio do verde chão amazônico, em 25 de dezembro de 1967, quando Maurício Grabois desembarcou no Porto da Faveira, às margens do rio Tocantins, e foi morar em um sítio então recentemente adquirido.

Já havia o trabalho de levantamento de informações em uma vasta área da região, feito por Osvaldo Orlando Costa, o Osvaldão, e outros membros do Partido.  

Com Grabois estavam Elza Monnerat, também dirigente do Partido, e Líbero Giancarlo Castiglia, jovem italiano que havia conhecido André Grabois, filho de Maurício, que também iria para o Araguaia, na escola e entrara para o PCdoB.

Grabois logo ficaria conhecido como “seu Mário”. Elza era a “dona Maria” e Líbero Giancarlo o “Joca”. Foram morar numa casa precária, de chão batido, mas ainda assim diferente das demais por ter paredes de barro e ser coberta com telhas, enquanto as outras tinham paredes de folhas de palmiteiro e cobertura de sapé. 

Assim que chegou, Maurício Grabois providenciou acomodações necessárias para uma longa estadia e voltou a São Paulo a fim de iniciar os preparativos para o envio de militantes à região.

Na capital paulista, recebeu a informação de que João Amazonas chegaria da China pela Bolívia e pretendia ser conduzido ao Araguaia.

Grabois encontrou-se com Edíria Carneiro, esposa de Amazonas, que lhe passou a informação; ela havia chegado de Paris havia poucos dias, onde estivera com seu companheiro.  

Em março de 1968, quando Grabois retornou à Faveira, um barco que havia encomendado estava pronto. Ele e Joca foram para Imperatriz, no Maranhão, encheram o barco de mercadorias, fumo, cigarros, remédios, querosene, óleo, fósforo, um pouco de café e açúcar, que seriam destinadas a uma venda montada no sítio. O negócio prosperou e ficou sob a responsabilidade de Elza Monnerat.  

Em julho, Maurício chegou ao Araguaia, vindo de São Paulo, para onde viajava regularmente para se encontrar com dirigentes do Partido, como João Amazonas e André Grabois, “Cid” e “Zé Carlos”. Em seguida chegou Ângelo Arroyo.    

Assassinato de Carlos Marighella 

O estudo da guerra popular no campo era uma necessidade. Em fevereiro de 1968, o Comitê Central publicou o documento denominado Salve a grande vitória da guerra popular, de autoria de Lin Piao, um dos dirigentes da República Popular da China, com a sistematização das experiências política e militar chinesas dos 22 anos da vitória da revolução naquele país.  

Em maio, o Comitê Central aprovou dois documentos. O primeiro, sob o título Alguns Problemas Ideológicos da Revolução na América Latina, tomava posição a favor da China e da Albânia, e contra os Estados Unidos e a União Soviética. 

O segundo, intitulado Preparar o Partido para Grandes Lutas, dizia, com base nas mobilizações estudantis que tomavam corpo, que “o desprendimento e a energia da mocidade, bem orientada, são fatores de radicalização das lutas”.

Mas alertava que “as zonas rurais constituirão as vastas áreas de manobra para os destacamentos armados do povo e nestas zonas encontrava-se o maior potencial revolucionário”.  

Outro texto, com o título A política estudantil do PCdoB, orientou os militantes, naquele ano de grandes embates com a ditadura, quando greves e manifestações estudantis desafiaram os golpistas. 

No começo de 1969, o PCdoB realizou uma reunião ampliada do Comitê Central na qual aprovou o documento Guerra Popular — Caminho da Luta Armada no Brasil, que expôs, “nos aspectos essenciais”, a concepção “da luta armada em que todo o povo brasileiro se empenhará para livrar o país da ditadura e do domínio imperialista norte-americano”, e o Manifesto ao Povo, denunciando o banditismo da repressão e conclamando a unidade nacional para “derrubar os opressores”.  

A reunião também definiu que o PCdoB deveria ter “no interior (sic) o centro de gravidade do seu trabalho” e que “as forças armadas populares terão, durante muito tempo, de se orientar pelos princípios da defensiva estratégica e guiar-se por uma política correta”.

E isso queria dizer, entre outras coisas, que o centro de atividades do Partido seria a luta armada, a “quinta tarefa”, como ficou conhecida na ordem de atividades definida pela direção do PCdoB. A primeira era a construção partidária. 

Durante o ano de 1969, o número de militantes encaminhados à Guerrilha aumentaria significativamente.

No dia 13 de dezembro de 1968, a ditadura havia decretado o AI-5, intensificando as medidas repressivas. Na prática, estava decretado o terrorismo oficial de Estado.

Para muitos desses militantes, viver nas cidades era caminhar à beira do precipício. O AI-5 aboliu o habeas corpus e quem fosse preso dificilmente escaparia da tortura e, muitas vezes, da morte.

Os processos e condenações pipocavam em todo o país e os bandos policiais, conhecidos como esquadrões da morte, autorizados a torturar e a matar, agiam com violência brutal. 

Em uma das suas ações, um antigo dirigente do PCB, Carlos Marighella, foi brutalmente assassinado. O crime ocorreu na noite de 4 de novembro de 1969.

A direção do PCdoB passara o dia em reunião e à noite assistia ao jogo entre Santos e Corinthians pela televisão, quando receberam a notícia do assassinato de Marighella, então líder da Ação Libertadora Nacional (ALN), na Alameda Casa Branca, comandado pelo delegado do Departamento de Ordem Política e Social, Sérgio Paranhos Fleury, o chefe do esquadrão da morte paulista.  

Uma nota publicada em A Classe Operária registrou que Marighella foi “vítima de torpe cilada” e “vilmente fuzilado em plena rua pela polícia”.

“O assassinato deste conhecido revolucionário é mais uma ação vergonhosa e covarde que se acrescenta à onda de inomináveis violências que a ditadura militar vem cometendo. A história do Brasil registra poucos crimes políticos tão infames, tão friamente planejados como o perpetrado na Alameda Casa Branca, em São Paulo. Dezenas de beleguins, poderosamente armados, à traição, levaram a cabo um homicídio puro e simples.” 

Nesse clima, permanecer nas cidades era um jogo arriscado. Por isso, o PCdoB apressou o envio de militantes ao sul do Pará.

A organização da Guerrilha começou com a instalação de três destacamentos, o A, na Faveira, abrangendo os municípios de São João do Araguaia e Apinagés; o B, na Gameleira, próximo ao povoado de Santa Isabel, mais ou menos 50 quilômetros acima da cidade de São Geraldo do Araguaia, abrangendo uma parte da Serra das Andorinhas; e o C, no Caiano, abaixo de São Geraldo, na direção do município de Conceição do Araguaia. 

Em dezembro de 1969, o Comitê Central reuniu-se novamente para aprovar o documento Responder ao Banditismo da Ditadura com a Intensificação das Lutas do Povo, que lançou o Movimento de Revolucionarização Ideológica do Partido como ponto de partida da guerra popular.

Esse texto orientou os comitês do PCdoB a tomarem medidas que assegurassem “o envio de elementos para o campo” e a “estudar as reivindicações das massas camponesas, organizar o recrutamento de trabalhadores rurais e desenvolver suas lutas”. Comitês militares começaram a ser criados pelo país afora.  

A luta armada começava a sair da pena e a ser preparada efetivamente. Ao longo do ano de 1970, três documentos foram aprovados pelo Comitê Central para marcar a linha política do PCdoB.

O primeiro, publicado em abril e escrito por João Amazonas e Maurício Grabois nas selvas do Araguaia, denominado A atualidade do pensamento de Lênin, foi a primeira manifestação pública de divergências com o Partido Comunista da China sobre a tese do Pensamento de Mao Tse-Tung como “nova etapa do marxismo”.

O segundo, de julho, com o título Mais audácia na luta contra a ditadura, aprofundava o movimento de revolucionarização iniciado no ano anterior.

E o terceiro, de dezembro, intitulado Desenvolver ações mais vigorosas, orientou a militância para o “espírito de oposição das massas” com vistas a “acelerar a preparação da luta armada”. 

Os guerrilheiros começaram a trabalhar e a conviver com os moradores da região em posses previamente adquiridas. Formaram lavouras, exploraram castanhais e montaram pequenos comércios. Ao mesmo tempo, desempenhavam um ativo trabalho social.

O birô político da Guerrilha era formado por Maurício Grabois, João Amazonas, Ângelo Arroyo e Elza Monnerat.

Havia também a Comissão Militar e um comandante em cada destacamento. Com a evolução dos preparativos, Maurício Grabois foi assumindo o comando militar.

Em São Paulo, sob a liderança de Carlos Danielli, a Comissão de Organização era o elo entre os membros da direção que ficaram nas cidades e os dirigentes da Guerrilha.  

Pensamento de Lênin 

A Guerrilha do Araguaia faz parte das marcas populares gravadas na história do Brasil de forma indelével.

Mas, como convém aos que analisam os acontecimentos históricos à luz dos interesses ideológicos dominantes, a resistência à ditadura militar organizada pelo PCdoB é majoritariamente apresentada como fato passageiro em nossa história, um mero choque entre grupos extremados à esquerda e à direita, deflagrado pelos primeiros com a opção da luta armada.  

O PCdoB definiu o caminho da guerra popular com base na teoria de Lênin sobre a organização revolucionária.

Seria a guerra do povo, um longo caminho para a libertação nacional. Esse caminho indica, sem margem para dúvidas, que a Guerrilha do Araguaia faz parte da essência leninista do PCdoB, como registraram Maurício Grabois e João Amazonas no documento A atualidade do pensamento de Lênin, escrito em 1970 na selva amazônica.  

Os ensinamentos de Lênin sobre o partido, a luta ideológica, o papel das massas, a violência revolucionária e o internacionalismo, entre inúmeros outros, constituem poderosos meios nas mãos dos revolucionários, diz o documento A atualidade do pensamento de Lênin. “O pensamento de Lênin sobre o papel do partido e das massas impregna a orientação do PC do Brasil”, prossegue.  

Para Lênin, conforme mostra sua vasta produção revolucionária, a organização partidária é central. A obra Que fazer? é a fonte inicial da teoria política de partido de novo tipo.

O assunto esteve em suas avaliações sobre os revolucionários da Comuna de Paris, partindo do que dissera Karl Marx. Não havia um partido operário, não havia uma séria organização política do proletariado, nem fortes sindicatos, nem grandes cooperativas, disse Lênin.   

A teoria leninista de organização partidária era muito cara para a Guerrilha do Araguaia, assunto que esteve também no centro dos debates que perpassaram a segunda metade da década de 1970 e o início da década de 1980.

O desfecho se deu no 6º Congresso, em 1983, depois dos debates no Comitê Central até a Chacina da Lapa em 1976 e na 7ª Conferência, concluída em 1979.  

O PCdoB vinha de uma longa experiência de resistência democrática, que passou pelo Levante de 1935, pelo enfrentamento à ditadura do Estado Novo e pelo combate ao governo do general Eurico Gaspar Dutra.

O Brasil no pós-Segunda Guerra Mundial também foi analisado sobretudo nos documentos Manifesto de 1948 e Manifesto de 1950, mais tarde, no 4º Congresso de 1954, minuciosamente examinados nos longos debates para a elaboração do Programa.

A Conferência Extraordinária que reorganizou o Partido Comunista do Brasil em 1962 e a 6ª Conferência, de 1966, também mergulharam no tema.  Essa elaboração balizou as tomadas de decisões sobre o combate à ditadura militar.  

 

Osvaldo Bertolino é jornalista, historiador, escritor e autor entre outros livros de Guerrilha do Araguaia – verdades, fatos e histórias (2021), Pedro Pomar — ideias e batalhas (2013), Maurício Grabois — uma vida de combates (2ª edição 2012) e Testamento de luta — a vida de Carlos Danielli (2002).

 


Comentários

Waldir Bertúlio

12/04/2022 - 23h42

Memória , resistência , confronto , história heróica concreta contra a DITADURA MILITAR . Viva !!!

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