PM invade reitoria da USP de madrugada, aponta arma para estudantes, agride e prende grevistas; veja vídeos e fotos
10 de maio de 2026 - 08h14
Por Lúcia Rodrigues
A Companhia de Ações Especiais (CAEP) da Polícia Militar invadiu a reitoria da USP na madrugada deste domingo, 10, por volta das 4h, para expulsar os estudantes em greve que estavam acampados no local em protesto contra o rompimento das negociações por parte do reitor, Aluísio Segurado.
Um dos policiais apontou uma arma para o estudante de Jornalismo da ECA, Guilherme Farpa, que fotografava a ação da PM.
“Fui ameaçado. Eu estava do lado de fora da reitoria tirando fotos e filmando, disse que era imprensa. E ele (PM) apontou a arma pra mim e me xingou”, explica Guilherme, que além de fazer a cobertura da ocupação também é diretor do DCE-Livre da USP.
Na ação violenta, a PM usou cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo, feriu estudantes, alguns deles no rosto. Um dos alunos também teria tido o braço quebrado e foi levado para hospital, segundo relato dos colegas.
Quatro estudantes foram presos e levados para o 7°DP, na Lapa, zona oeste da capital paulista, mas foram soltos na manhã deste domingo após intervenção de advogados do movimento.
Guilherme conta que a PM não deixou os estudantes pegarem seus pertencentes, que permanecem dentro da reitoria.
“Não deixaram tirar nada, documentos, remédios, mochilas, cobertas, notebooks, celulares, tabletes, calçados, roupas. Eu consegui um casaco emprestado, porque tava com frio. A PM informou nossos advogados, que vai periciar nossos pertences e só vai nos entregar os essenciais na segunda-feira, e que os demais ficam a critério da reitoria entregar ou não.”
A PM também atacou as barracas e revirou mesas.
Enquanto saíam da reitoria os estudantes também foram espancados em uma espécie de corredor polonês.
Segundo Guilherme, não havia nenhuma ordem de reintegração de posse do prédio emitida pela justiça. E ainda que houvesse, não poderia ter sido realizada naquele horário, em que não é permitida a ação policial.
Dali, os estudantes foram para a Associação de Moradores do Crusp, o Conjunto Residencial da USP, e posteriormente se dirigiram para a delegacia de polícia, para pressionar pela soltura dos colegas.
Os estudantes prosseguem mobilizados em greve.
O DCE-Livre da USP divulgou nota repudiando o ataque da PM, em que criticam o reitor, Aluísio Segurado, e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Veja o documento abaixo.






Leia íntegra da nota do DCE-Livre da USP.
“Estudantes feridos e detidos, Aluísio a culpa é sua! A Reitoria da USP escolheu relembrar o período mais sombrio de nossa história ao optar pela violência contra seus estudantes!
Nota do DCE Livre da USP sobre a violenta desocupação da Reitoria
Na madrugada deste domingo (10/05), por volta das 4h15, dezenas de policiais militares invadiram a ocupação da Reitoria da USP construída pelos estudantes desde quinta-feira. Essa ação teve como resultado dezenas de estudantes feridos através de bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e cassetetes, da formação de um corredor polonês para espancamento e quatro estudantes detidos.
A ação, de responsabilidade do reitor Aluísio Segurado e de seu chefe de gabinete Edmilson Dias de Freitas, deve ser profundamente repudiada por toda a comunidade universitária. A USP já foi tomada por períodos sombrios de autoritarismo, e a Reitoria da USP, no dia de hoje, escolheu relembrar esses períodos da pior forma possível, recusando o diálogo e optando pela força e pela violência da Polícia Militar. Aluísio, Edmilson e o conjunto da Reitoria escolheram ignorar as reivindicações por melhores políticas de permanência de dezenas de milhares de estudantes e reprimir alunos e alunas que sustentam cotidianamente o ensino, a pesquisa e a extensão dentro da universidade, tudo isso em pleno Dia das Mães.
Além disso, essa ação ocorre de forma abusiva eivada de ilegalidade, vez que ocorre sem qualquer determinação judicial que pudesse embasar a ação policial. É preciso apontar que, mesmo em situações em que há determinação de reintegração de posse (o que não é o caso), existe um conjunto de regras que orientam o procedimento de desocupação, entre as quais a ilegalidade da realização de operações entre às 21h e 5h, algo pacífico nos tribunais.
Segundo apurado, o que motivou a operação policial que espancou, deteve estudantes e destruiu materiais, teria sido o flagrante de esbulho. Trata-se de motivação espúria, vez que o ordenamento jurídico prevê que para que se cesse tal situação, a medida cabível é ação judicial, o que, reitera-se, não ocorreu, sendo mais um elemento de ilegalidade.
É importante ressaltar: a ocupação já passava de 60 horas, não havia qualquer sinal de violência ou grave ameaça a qualquer pessoa, a operação ocorreu fora do horário de funcionamento administrativo, e a todo momento houve acompanhamento policial.
Ainda no rol das ilegalidades, não há qualquer informação sobre a motivação real para a detenção de quatro estudantes, ou mesmo, quais condutas lhes foram imputados para que ensejasse o encaminhamento destes estudantes à 7ª DP, isso sem mencionar nos registros de policiais vasculhando itens pessoais, mochilas e barracas sem a presença de agente de perícia ou qualquer acompanhamento.
Assim, questiona-se: por que a polícia militar esperou a madrugada, enquanto estudantes dormiam, para realizar a operação? Por que não houve mediação? Por que agora? Por que os estudantes foram detidos e não há transparência? Por que objetos pessoais estão sendo vasculhados de forma arbitrária?
Na prática, Aluísio e Edmílson aliaram-se à truculência policial de Tarcísio de Freitas, e à ilegalidade, trazendo à tona uma marca assombrosa de repressão e intransigência, algo já denunciado pelos estudantes durante todo período da greve, e que motivou a ocupação.
Nos últimos dias, diversas unidades da nossa universidade publicaram notas de repúdio à ocupação por a caracterizarem como “violenta” e declararam “apoio irrestrito” à Reitoria. Nos questionamos: alguma ação por parte dos estudantes chegou perto da violência levada a cabo pela Polícia Militar na madrugada do dia de hoje? Há violência maior ao “patrimônio da universidade” do que agredir seus próprios estudantes? As diretorias e os docentes da USP serão coniventes com uma Reitoria que escolheu, mesmo depois dos múltiplos apelos ao diálogo, protagonizar um dos episódios mais violentos da história recente dentro da nossa universidade, justamente no ano em que o DCE Livre da USP, fundado na luta contra a ditadura militar, completa 50 anos?
Os estudantes querem saber: Aluísio e Edmilson, por que escolheram ameaçar a integridade física e emocional dos estudantes? Por que escolheram ignorar as reivindicações dos estudantes pelo básico, como comida decente e moradia digna? O que vão dizer para as mães das centenas de estudantes que vão precisar consolar seus filhos hoje após essa ação truculenta?
A atual Reitoria da USP envergonha nossa história e toda a comunidade acadêmica. Diante de tudo, os estudantes, representados pelo DCE Livre da USP Alexandre Vannucchi Leme, reafirmam: nossos passos vêm de longe, nossa história é de lutas e não iremos parar por aqui.”



