Valério Arcary: Ninguém disse que seria fácil. Mas é perfeitamente possível reeleger Lula
10 de outubro de 2026 - 01h37
Mais vale ficar vermelho cinco minutos, que amarelo toda a vida. Gosto de ti que me entendes.
Provérbios populares portugueses
Por Valério Arcary*
1. Nesses últimos dias existia uma preocupação sobre os resultados das primeiras pesquisas, em função do choque da inversão das expectativas pela ultrapassagem de Lula por Bolsonaro. Foram 2%, uma diferença estreita, ainda que no contexto de um tsunami nas eleições para o Congresso e, também, muito adversa para governadores. Mas as primeiras pesquisas sinalizam, felizmente, que é possível uma reviravolta. Por quê? Por cinco razões: (a) todas elas identificam empates técnicos ou vantagens estatísticas apertadas dentro da margem de erro, com variações, como o DataFolha, em que Lula tem 48% dos votos válidos e Flávio 52%, já na Vox Lula está na frente com 50,9% e 49,1% para Bolsonaro, na Poder/Data 53% a 47%. para Flávio, assim como Atlas/Intel 52,8% a 47,2% para Lula, ou seja, o desfecho está em disputa. (b) Lula herdou cerca de 1/3 dos votos (32%) dos outros candidatos, e Flávio herdou um pouco menos da metade (46%), enquanto pouco mais de 15% declarou voto nulo, ou seja, o voto útil já tinha operado, em boa medida, no primeiro turno, mas ainda recolheram 7% dos votos válidos; (c) Lula obteve 11% a mais entre os eleitores mais pobres (52% a 41%), um eleitorado em que pode crescer, porque em 2022 a diferença foi bem maior 17% (54% a 37%) e são metade da população; (d) Lula ainda pode diminuir a diferença junto aos trabalhadores que ganham entre 2 e 5 salários-mínimos (de R$3.500,00 a R$7.500,00), porque a desaprovação do governo está em 49% e a aprovação em 48%; (e) o caminho da vitória depende dos, aproximadamente, 10% do eleitorado que é pendular, e oscilaram em 2018 para Bolsonaro, em 2022 para Lula, e agora se inclinaram na direção de Flávio, mas não rejeitam, absolutamente, nenhum dos dois, nem se alinham com nenhum dos dois.
2. Desde a última segunda-feira estamos assistindo a uma explosão de mobilizações de massas da juventude estudantil em escala nacional. É algo de imenso significado. Do extremo norte ao extremo sul do país, de Belém até Porto Alegre, passando pela Bahia, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba, aos milhares, os estudantes saíram de sala de aula e conquistaram as ruas. Há muitos anos não se via nada nesta dimensão. Trata-se de ações diretamente, políticas, de engajamento sobre a questão mais decisiva de todas: quem deve governar. Felizmente a UNE se posicionou, rapidamente, procurando sustentar, manter e estender a onda que começou de baixo para cima, espontaneamente. A juventude caminha mais leve que outros setores, porque não carrega o peso das desilusões do passado.
3. O desafio é que a faísca da juventude seja a centelha de grandes mobilizações de massas. Só uma campanha eleitoral a quente poderá reverter o resultado do primeiro turno. Nos últimos quatro anos o governo Lula buscou governabilidade a “frio”. A campanha eleitoral do primeiro turno fez uma aposta errada na linha de que a defesa do legado e biografia seriam suficientes para vencer em primeiro turno. Tudo sugere que foi o giro das duas últimas semanas, muito tardio, que ainda assim nos permitiu impedir uma derrota no passado domingo. Agora surgiu uma possibilidade de campanha a quente. Oxalá o comando da campanha Lula ainda tenha reflexos, e compreenda o gigantismo do que está acontecendo. Todas as lideranças públicas da esquerda devem apoiar, impulsionar e se unir a estas concentrações e marchas, e procurar arrastar os sindicatos e movimentos sociais. Mas colocando as sandálias da “humildade”. Demonstrar força nas ruas impacta e muito. Gera um efeito “arrastão” que emociona e comove. As imagens devem ir para a TV e redes sociais, ininterruptamente.
4. Ninguém deveria duvidar da máxima gravidade do que seria uma vitória dos Bolsonaros no segundo turno. Mas, infelizmente, a grande mídia comercial burguesa insiste na tática de “dançar na beira do abismo”. A fração liberal da classe dominante já deu como um desenlace “inevitável” a eleição de Flávio, e “precificou” o significado de uma possível derrota de Lula. Está em curso uma normalização do bolsonarismo como uma candidatura de “direita”. Não, não é uma corrente eleitoral conservadora. Não é uma “ala” eleitoral mais reacionária do centrão. Trata-se de um projeto extremista, como um pé na legalidade, e outro pé na ação contrarrevolucionária, o fascismo do século XXI. Bolsonaro dissimula, mas sua estratégia significa uma regressão histórica. No poder, eles vão “tocar o terror”. Tudo está ameaçado: da soberania nacional ao regime democrático, dos direitos econômicos sociais à transição energética. Trata-se de uma luta da civilização contra a barbárie. Não é preciso ser de esquerda, nem lulista para compreender este perigo devastador. As consequências serão, irremediavelmente, terríveis.
5. A reviravolta é difícil, mas possível, e vai depender de três movimentos: (a) anunciar, honestamente, reconhecendo os limites da gestão desde 2022, portanto, com sentido autocrítico, um programa audacioso de mudanças – mais reformas, mais futuro, mais esperança; (b) abraçar com coragem uma tática eleitoral de denúncia implacável da catástrofe apocalíptica para ampliar a rejeição do bolsonarismo entre os indecisos que não se interessam por política explicando tudo, pacientemente, na TV, nas redes e nas conversas, mas com empatia de quem entende suas hesitações; (c) uma linha de campanha de ousadia, incendiando a mobilização a “quente” colada no ascenso estudantil. Sem estas iniciativas será difícil reduzir a abstenção na base eleitoral do lulismo, a chave da disputa.
*Valerio Arcary é professor aposentado de História do Instituto Federal de São Paulo



