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MEMÓRIA

Marinheiro executado pela ditadura militar e localizado na Vala de Perus terá restos mortais sepultados após 54 anos

Memorial em homenagem às vítimas da ditadura militar erguido ao lado da Vala de Perus descoberta, em 1990, no Cemitério Dom Bosco Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil

14 de junho de 2026 - 12h53

Da redação

O marinheiro Grenaldo de Jesus da Silva é mais uma das vítimas da ditadura militar que teve o assassinato forjado como suicídio. Seu corpo foi enterrado como indigente e na ficha do IML constava a letra T, que o classificava como terrorista.

A descoberta de 1.049 ossadas na Vala de Perus, no Cemitério Dom Bosco, em 1990, na gestão da então prefeita Luiza Erundina, possibilitou a localização dos restos mortais de desaparecidos políticos da ditadura.

Em abril do ano passado, 35 anos depois, o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp, a Universidade Federal de São Paulo, atualmente responsável pelos exames de identificação das ossadas, anunciou que uma delas era de Grenaldo.

O sepultamento de seus remanescentes ósseos será realizado no próximo dia 26, às 11h, no mesmo Cemitério Dom Bosco, na periferia da zona noroeste da cidade, onde a ditadura tentou ocultar a identidade de Grenaldo e de tantos outros desaparecidos políticos.

Trajetória

Maranhense da capital São Luís foi preso com mais 413 companheiros de farda ligados à Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, logo após o golpe militar de 1964.

Expulso da Marinha e condenado a cinco anos e dois meses de cadeia sob a acusação de insubordinação e subversão, Grenaldo foi o marinheiro desse grupo que recebeu a pena mais alta.

Grenaldo de Jesus da Silva Foto: Memorial da Resistência

Conseguiu driblar a prisão e foi trabalhar como porteiro e vigilante na então empreiteira Camargo Corrêa, em Guarulhos, região metropolitana de São Paulo.

Seria executado em 30 de maio de 1972 dentro de um avião da Varig no aeroporto de Congonhas, na zona sul da capital paulista.

Pela versão da ditadura, teria sequestrado a aeronave, e armado com uma pistola obrigado o retorno do voo, com destino a Curitiba, ao aeroporto.

Com o fracasso da ação, a ditadura cravou a morte como suicídio, mais uma vez apoiada por um laudo falso assinado por médicos legistas do IML.

Verdade vem à tona

A verdade sobre a morte de Grenaldo só seria revelada em 2003, mais de três décadas após seu assassinato.

A então repórter da revista Época, Eliane Brum, foi procurada por uma testemunha do crime.

José Barazal Alvarez, então controlador de tráfego aéreo no aeroporto de Congonhas e sargento da Aeronáutica, trabalhava no dia do sequestro, e foi o responsável por recolher os pertences do ex-marinheiro e produzir o relatório sobre a morte.

No contato com a vítima detectou que Grenaldo não havia se suicidado, mas sido executado com dois tiros.

Grenaldo também trazia presa ao peito, próximo a um dos disparos que o atingiu, uma carta-testamento endereçada ao filho, à época uma criança.

No texto, explicava que o sequestro era para chegar ao Uruguai e que posteriormente voltaria para buscar a família.

Eliane Brum ainda localizaria o mecânico de voo, Alcides Pegruci Ferreira, o único membro da tripulação a permanecer na aeronave com Grenaldo, após a saída dos passageiros e demais tripulantes.

Ele constatou que uma das perfurações que atingiu Grenaldo era na nunca, característica de crimes de execução.

“A ditadura decidiu que era suicídio e a gente teve de aceitar”, declarou à repórter.

A aeronave foi invadida por agentes do DOI-Codi e Grenaldo executado.

Os próprios assassinos chegaram a contar a presos políticos, que estavam no centro de tortura, que tinham matado o sequestrador do avião.


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