Memorial da Resistência abre exposição de arte com obras realizadas por presos políticos da ditadura militar
24 de junho de 2026 - 09h59
Por Lúcia Rodrigues
A arte produzida atrás das grades durante a ditadura militar revela as marcas de um tempo que vão estar retradas na exposição Não se Assuste, Pessoa, que será aberta ao público no Memorial da Resistência neste sábado, 27, às 11h.
O título é inspirado em trecho da canção Dê Um Rolê, interpretada por Gal Costa, explica o curador da exposição, Tálisson Melo, pós-doutorando no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, a Universidade de São Paulo.
“Logo após (os Novos Baianos) terem sido presos, por terem feitos performances, Moraes Moreira escreve essa música que ficou eternizada na voz da Gal Costa, e que expressa que apesar da violência da ditadura, da repressão, ainda há formas de se viver e encontrar a dignidade. Isso aparece muito nos desenhos. Uma relação com o amor e a integridade da pessoa.”
Ele conta que a mostra vai reunir 90 obras de 21 ex-presos políticos.
O articulista de Holofote, Manoel Cyrillo de Oliveira Netto, é um deles.
Preso pela ditadura por 10 anos, entre 30 de setembro de 1969 e 21 de setembro de 1979, Manoel produziu obras no presídio Tiradentes, na Penitenciária do Estado e no presídio Romão Gomes, conhecido como Presídio Político de São Paulo.
No caso da Penitenciária, Manoel teve de se matricular no curso de pintura, para poder ter acesso ao material para a produção artística.
“O professor Silvio era amigo da (crítica de arte) Radha Abramo. Ele repassava meus trabalhos para a Radha, e ela repassou tudo o que fiz, para o Alípio (Freire)”, recorda.
O acervo de Manoel e dos demais presos políticos foi conservado por Alípio Freire, que além de ex-preso político também era artista plástico. Com sua morte em 2021, sua companheira, a advogada Rita Sipahi, repassou a coleção à Pinacoteca do Estado.
Uma das obras de Manoel que serão apresentadas na exposição é a que ilustra a capa desta matéria. Foi produzida no Presídio Tiradentes, em 1972.
“Esse trabalho representa em termos pessoais a dor mais profunda, mais dolorida, mais terrível que eu já tive na minha vida. Um grupo de policiais atira em uma pessoa, acerta, e ela cai sangrando no chão. Só que a bala continua seu percurso, entra na cadeia e atinge também um preso, que sou eu. Eu estava retratando a morte de meu tio (João Carlos Cavalcanti Reis), simbolicamente. Ele não foi morto, simplesmente, com um tiro (foi torturado também). Até porque chegou de cueca ao necrotério. A alegação da polícia era a de que havia ocorrido uma troca de tiros na rua. Só que ninguém morre numa troca de tiros na rua de cueca. Mas eu retratei assim. Tentei mostrar de outra forma a realidade”, ressalta emocionado ao recordar-se do tio, também combatente da ditadura militar.
Antes de ser preso, Manoel já tinha intimidade com expressões artísticas, especialmente com o pontilhismo realizado com caneta nanquim. A técnica foi transportada para trabalhos de pirogravura realizados no cárcere.
Um trabalho feito em madeira com essa técnica se transformou em cartaz da Anistia. “São fotogramas que, gradativamente, formam o mapa do Brasil”, explica.
É de Manoel também as ilustrações das capas dos livros do poeta Hamilton Pereira, o Pedro Tierra, e da jornalista Jan Rocha, além de uma publicação do Clamor, o Comitê de Defesa dos Direitos Humanos para os Países do Cone Sul, fundado no final dos anos 1970.
A primeira edição do livro de Pedro Tierra foi editada na Espanha por D. Pedro Casaldáliga, segundo Manoel.


Com a dedicatória do amigo Hamilton Pereira, o Pedro Tierra
No caso da capa do livro de Jan e da publicação do Clamor, a imagem da vela já havia ilustrado cartões de Natal que Manoel Cyrillo produziu, um a um, para serem distribuídos como lembrança para familiares de presos políticos que iam visitá-los à prisão.



Manoel relembra que outro cartão de Natal feito por ele no cárcere reproduzia uma mão, em que os dedos indicador e polegar seguravam um palito de fósforo aceso.
Ele não considera, no entanto, que a arte realizada atrás das grades era uma forma de resistência.
“Eu não acho correto dizer que aqueles trabalhos eram trabalhos de resistência. A resistência tinha que ser mais efetiva, mais específica contra a afronta do dia a dia. A ditadura usava de todos os artifícios para nos agredir. Então a resistência tinha de ser absoluta e não expressa por uma obra de arte. Não tinha essa concepção para mim. O trabalho artístico é individual, a resistência do preso político é coletiva. Mas o trabalho do Alípio (Freire) preservando todas essas obras foi revolucionário”, frisa.
Ele conta que uma greve de silêncio dos presos políticos conseguiu derrubar o diretor do presídio.
“Depois de uma greve de fome muito grande e vitoriosa, em que conquistamos um presídio político em São Paulo, colocaram para ser diretor desse presídio, um torturador da Operação Bandeirantes, do DOI-Codi, mas nós evitamos isso. Fizemos o que foi chamado de greve do silêncio. Quando a gente soube que o torturador era o nosso diretor, nós o ignorávamos. Ele nos chamava para reunião coletiva e nós olhávamos para o céu, alguns viravam de costas. Isso foi planejado, combinado. E eles ficaram totalmente perdidos, particularmente ele. A repressão ainda insistiu por alguns dias na permanência dele como diretor, mas ele próprio, poucos dias depois, pediu demissão. Era impossível dizer que era diretor de um presídio, onde ninguém nem olhava para ele. Não aceitávamos sua presença naquele espaço em que nos confinaram. E nomearam outro diretor”, recorda.
Serviço
Exposição Não se assuste, pessoa
Quando: Abertura 27 de junho, às 11h. A mostra permanece em exposição até 28 de março de 2027, de quarta-feira à segunda, das 10h às 18h.
Quanto: Gratuita
Onde: Memorial da Resistência – Largo General Osório, 66, 3° andar, Santa Efigênia, centro da capital paulista. É possível acessar o local pela plataforma interna da estação de trem Luz sentido Jundiaí, que tem interligação com o metrô das Linhas 1 (Azul) e 4 (Amarela).
Quem: Aldo Arantes, Alípio Freire, Angela Maria Rocha, Artur Scavone, Bartolomeu José Gomes, Carlos Henrique Heck, Carlos Takaoka, Henrique Buzzoni, José Cláudio Barriguelli, Jorge Baptista Filho, José Wilson, Manoel Cyrillo, Martinho Leal Campos, Paulo Radtke, Regis Andrade, Renato Motta, Rita Sipahi, Sérgio Ferro, Sérgio Sister, Wilson Palhares e Yoshiya Takaoka.
Antonio Benetazzo, combatente da ALN, a Ação Libertadora Nacional, e do Molipo, o Movimento de Libertação Popular, e artista plástico, assassinado sob tortura pela ditadura militar em 1972, também terá trabalhos na Mostra.



