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NÃO AO SIONISMO

Entidades argentinas de DH divulgam carta aberta em que acusam associação israelense de perseguir críticos de Israel

Javier Milei apoia Benjamin Netanyahu Foto: Ma’ayan Toaff/Gabinete de Imprensa do Governo de Israel

28 de junho de 2026 - 11h33

Da redação

Organizações argentinas de defesa dos direitos humanos, capitaneadas pelas Mães da Praça de Maio, além de entidades judaicas, divulgaram carta aberta em que denunciam a Delegação das Associações Israelenses Argentinas (DAIA), algo equivalente no Brasil à Conib, a Confederação Israelita do Brasil, por perseguição contra quem critica o governo israelense.

Os signatários reprovam a entidade sionista por atacar criminalmente pessoas e entidades, como o músico inglês Roger Waters e a Anistia Internacional, ao rotulá-los como antissemitas e judeufóbicos.

O texto endossado também por lideranças políticas, culturais e sociais, destaca que o Tribunal Penal Internacional já classificou as constantes violações de direitos humanos por Israel contra os palestinos que vivem em Gaza, como crime contra a humanidade.

Além de ressaltar que a relatora especial da ONU, Francesca Albanese, instou o promotor desse Tribunal a investigar a conduta de Israel pela prática de apartheid e genocídio, conclusão a que também chegou a Comissão Internacional Independente de Investigação sobre os Territórios Palestinos Ocupados.

O documento ressalta ainda que a entidade sionista atua em parceria com meios de comunicação, jornalistas e quadros do judiciário para promover uma caça às bruxas contra opositores do genocídio, além de frisar que a DAIA não representa toda a comunidade judaica argentina.

Leia a seguir a íntegra da carta divulgada.

“Por mais de uma década, a Delegação das Associações Israelenses Argentinas (DAIA) tem promovido perseguição ideológica e política contra aqueles que se expressam criticamente contra as políticas repressivas e criminosas do governo israelense. As atrocidades cometidas contra o povo palestino e a decisão de Israel de tornar sua soberania total impossível geraram profunda empatia pelas vítimas e, ao mesmo tempo, uma rejeição daqueles que provocam tal barbárie.

As expressões de solidariedade com o povo palestino, enunciadas por vários líderes políticos, sociais e culturais na Argentina, são somadas às múltiplas repulsas contra as autoridades governamentais israelenses e suas políticas de ocupação, deslocamento étnico, roubo de terras e apartheid. Muitas dessas questões políticas são direcionadas ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que é alvo de um mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional.

Deve-se notar que as massivas violações de direitos humanos cometidas contra a população civil de Gaza, incluindo assassinatos em massa, destruição de infraestrutura, confiscos de terras, deslocamento forçado e bloqueio da ajuda humanitária, foram classificadas pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) como crimes contra a humanidade.

Na mesma linha, a Relatora Especial nomeada pelas Nações Unidas sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, Francesca Albanese, instou o Procurador do Tribunal Penal Internacional a investigar a prática de crimes cometidos pelo Estado de Israel, como apartheid e genocídio. Por sua vez, a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre os Territórios Palestinos Ocupados concluiu, após uma investigação exaustiva, que Israel está cometendo genocídio contra o povo palestino e instou o Estado a pôr fim a tal atrocidade, além de punir os responsáveis.

De acordo com informações publicadas pela Agência das Nações Unidas para Refugiados da Palestina no Oriente Próximo, entre 7 de outubro de 2023 e 1º de abril de 2026, 72.289 palestinos foram mortos e 172.040 ficaram feridos. A UNICEF também relatou que, até 3 de fevereiro de 2026, 21.289 crianças haviam sido mortas e 44.500 crianças feridas em Gaza. Além disso, revelou que pelo menos 1,3 milhão de pessoas – a maior parte da população de Gaza – ainda estava deslocada. Em abril de 2025, segundo informações divulgadas pelas Nações Unidas, 92% das casas na Faixa de Gaza haviam sido danificadas ou destruídas, e havia 11 mil pessoas desaparecidas sob os escombros.

Diante desses dados revoltantes, o caminho escolhido pela DAIA tem sido a distorção tendenciosa dessas questões e críticas políticas, associando aqueles que denunciam os massacres como portadores de julgamentos judeufóbicos e/ou antissemitas. Para isso, eles apelam à cumplicidade com jornalistas, acólitos, a mídia e tribunais judiciais, que funcionam para executar tentativas de disciplina e censura.

A perseguição ao povo judeu causou milhões de vítimas ao longo da história, especialmente durante o Holocausto (Shoah). Usar esse tormento coletivo horrível, inscrito na memória universal da infâmia, para legitimar ou justificar as políticas coloniais de Netanyahu contra o povo palestino é uma trivialização imperdoável. A memória do Holocausto deve servir como guia para rejeitar qualquer ato de extermínio contra qualquer povo. Para confundir ainda mais a sociedade argentina, críticos das políticas do governo israelense foram rotulados como defensores da organização Hamas, que produziu um massacre feroz e absolutamente condenável contra a população civil israelense em outubro de 2023.

Exemplos dessa “caça às bruxas” promovida pela DAIA são as denúncias criminais feitas contra o músico Roger Waters e contra líderes políticos como Alejandro Bodart, Leopoldo Moreau, Vanina Biasi, Horacio Pietragalla e o senador José Mayans. A DAIA – que se apresenta fraudulentamente como representante de toda a comunidade judaica argentina – também promoveu reclamações contra Norman Briski, Alejandro Bercovich, Tomás Rebord, o professor Federico Puy, a organização da Anistia Internacional e a ATE regional de Rosário. Diante dessas repetidas tentativas de confundir e distorcer a realidade promovidas pela DAIA, o abaixo assinado expressa com clareza e profunda convicção que:

● Tomar uma posição contra todas as formas de colonialismo não é antissemitismo.

● Repudiar o bombardeio da população civil de Gaza, que levou ao assassinato de 70.000 pessoas – 20.000 delas crianças – não pode ser usado para rotular aqueles que se opõem a esses massacres como judeufóbicos.

● Reivindicar o direito dos palestinos de ter um estado soberano, junto com Israel – conforme previsto pelas Nações Unidas em 1947 – não pode ser associado a nenhuma forma de judeufobia.

● Denunciar Netanyahu não pode ser associado a uma forma de ódio contra judeus.

Em seu estatuto atual, a DAIA afirma que seu objetivo prioritário é “combater todas as formas de discriminação”. Ao perseguir aqueles de nós que decidem ser solidários às vítimas, traem seus próprios postulados, transformando-os em letra morta.

Lutar contra todas as formas de discriminação é se opor a qualquer tipo de estigmatização e inferiorização social. A luta contra o racismo, a aporofobia (rejeição aos pobres), a xenofobia, a misoginia, a discriminação sexual, religiosa, aos povos originários, a islamofobia, a judaicofobia e todas as formas de ódio, são bandeiras não delegáveis para aqueles de nós que continuam lutando por uma democracia plena, hasteando as bandeiras da Memória, Verdade, Justiça e Soberania.

A DAIA e sua mídia de propaganda devem saber que suas perseguições insistentes não vão confundir nossas posições políticas com a judeufobia. Nenhum tipo de denúncia, calúnia ou detração conseguirá silenciar aqueles de nós que nos colocamos no lugar integral e digno da história.

Madres de Plaza de Mayo Línea Fundadora, H.I.J.O.S Capital, Familiares de Desaparecidos y Detenidos por Razones Políticas, APDH, Liga Argentina por los Derechos Humanos, SERPAJ, Llamamiento Argentino Judío, Federación de Entidades Culturales Judías (ICUF), Colectivo de sobrevivientes ESMA, NIETES, Grupo de Curas en Opción por los Pobres, Palotinos por la Memoria, Coordinadora de DD. HH. del  fútbol, Liberpueblo Alperin“.


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