PCP é o único a não participar das comemorações dos 50 anos do golpe que atacou viés socialista da Revolução dos Cravos
16 de novembro de 2025 - 02h28
Por Lúcia Rodrigues
O Partido Comunista Português é a única legenda política que não participará das comemorações dos 50 anos do golpe de 25 de novembro de 1975, que sepultou o PREC, o Processo Revolucionário em Curso, período da Revolução dos Cravos comandado pelas forças de esquerda do MFA, o Movimento da Forças Armadas.
No ano passado, quando se comemorou os 50 anos da Revolução dos Cravos, os partidos de direita e extrema direita se uniram para aprovar na Assembleia da República, o Parlamento de Portugal, projeto determinando que o 25 de Novembro fosse celebrado na Casa, em sessão solene semelhante a do 25 de Abril.
Em suas intervenções, sob aplausos recíprocos, deputados do PSD, Chega, CDS-PP e Iniciativa Liberal se revezaram nos ataques à reforma agrária e às nacionalizações de empresas e bancos promovidas no pós 25 de Abril durante o PREC.
O Chega ainda tentou transformar a data em feriado nacional, mas foi derrotado.
Além da sessão na Assembleia da República, o 25 de Novembro também será comemorado com uma parada militar em Lisboa.
O presidente direitista Marcelo Rebelo de Sousa participa de ambas.
História de Portugal
O PREC começou a sofrer um revés entre junho e agosto de 1975, período que ficou conhecido como Verão Quente pelos embates entre as forças antagônicas.
Estava em disputa os rumos da Revolução. De um lado a ala revolucionária e socialista do MFA, de outro a que preconizava a via burguesa para Portugal.
Nas ruas, as forças de esquerda e direita também se enfrentavam em confrontos.
À frente da chefia de governo, estava o primeiro-ministro, o general Vasco Gonçalves, próximo ao PCP, que já tivera de enfrentar uma tentativa de golpe, em 11 de março, liderado pelo general direitista António de Spinola.
Após o fracasso do golpe, Gonçalves intensificaria ainda mais as nacionalizações. E os direitistas e o líder do Partido Socialista, Mário Soares, reagem.
Será Soares quem convocará um comício gigante em Lisboa para pedir a cabeça de Gonçalves. Além de organizar uma frente antigonçalvista integrada, inclusive, pela Igreja Católica que promoverá agitação entre os fiéis.
É nesse contexto que também ocorrem ataques contra sedes de partidos de esquerda, especialmente as do Partido Comunista Português.
O governo de Gonçalves cairá, destituído pelo presidente da República, o general Francisco da Costa Gomes.
Golpe
A instabilidade política se acentua e culminará no golpe militar desferido pela ala direitista das Forças Armadas, em 25 de novembro 1975, que aniquila o Processo Revolucionário em Curso e o caráter socialista da Revolução dos Cravos.
O professor de História Contemporânea da USP, Lincoln Secco, especialista em Revolução dos Cravos, explica que o 25 de Novembro foi principalmente urdido por coronéis liderados por Ramalho Eanes.
“Mesmo a ala moderada do MFA, que estava no governo, ficou alijada do processo. Os oficiais conservadores se aproveitaram de um protesto desorganizado de setores de esquerda, para desencadear uma operação militar previamente planejada, cujo objetivo foi expurgar oficiais da esquerda das Forças Armadas.”
E acrescenta: “Eles não tinham condições políticas de voltar ao salazarismo, mas puderam tramar com o Partido Socialista e os moderados do MFA, o desfecho burguês da Revolução”.
O professor Lincoln enfatiza ainda que o resgate do 25 de Novembro faz parte da estratégia neofascista.
“Usam a democracia e a liberdade como palavras vazias, enganando a população como se a extrema direita fosse democrática. O 25 de Novembro não foi feito para consolidar a democracia, foi feito para derrubá-la e acabar com a revolução. Mas como não tinham força suficiente para isso, então a solução foi uma democracia burguesa. O Chega está muito longe de defender qualquer tipo de liberdade”, frisa.



