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ESQUERDA

Boric assume Presidência do Chile nesta sexta-feira, 11, em Valparaíso, cidade onde nasceu Pinochet

11 de março de 2022 - 11h24

Chile: expectativas e desafios para governo Gabriel Boric

 

Por Victoria Cayres, de Santiago do Chile

O triunfo de Gabriel Boric, candidato da esquerda, frente à extrema-direita encabeçada por José Antonio Kast, fez a esperança triunfar sobre o medo e o legado ditatorial de Augusto Pinochet, abrindo um novo caminho para que a política siga o rumo das mudanças estruturais e o Chile alcance um modelo mais igualitário e justo para todos.

Nesta sexta-feira, 11, Boric assume a Presidência da República no Congresso do Chile, na cidade de Valparaíso, onde ironicamente nasceu Pinochet e de onde partiram tropas para aniquilar o governo socialista de Salvador Allende.

Ao  simbolismo do local se soma o clima de expectativa criado frente aos desafios que estão postos para o novo governo. Desafios, que na verdade, começaram durante a campanha e se consolidaram com a vitória de Boric nas urnas em 19 de dezembro do ano passado. O dia em que votei pela primeira vez para presidente e que começou cheio de esperança e temor.

Nesse domingo, muitas pessoas levantaram cedo para ir votar e evitar filas nas piores horas de calor, mas foram impedidas pela falta de transporte público. As ruas estavam um caos, cheias de pessoas que  tentavam chegar aos seus locais de votação.

Diante do problema, o governo de Sebastián Piñera não deu nenhuma resposta. Logo depois viralizou nas redes sociais que a maioria dos ônibus estavam estacionados nas garagens das viações. Não demorou muito para que as pessoas percebessem que o governo estava boicotando a votação e a vitória do candidato de esquerda, ao impedir a mobilização da classe trabalhadora. 

A equipe de Gabriel Boric, entretanto, através das redes sociais, conseguiu movimentar seus eleitores que tinham carros, para levarem as pessoas que precisavam chegar aos postos de votação.

Nas ruas havia trânsito como nunca se viu antes, com carros cheios de gente e buzinas para chamar a atenção das pessoas para irem votar. Essa ação provou ser eficiente e todos os locais eleitorais excederam a meta de votos, já que o número de eleitores é geralmente baixo no Chile devido ao voto ser voluntário. 

Apesar de todos os obstáculos que ocorreram naquele domingo, Gabriel Boric se transformou no presidente mais jovem eleito na história do Chile e também o mais votado. Além disso, mais de 7,1 milhões de pessoas compareceram às urnas, representando 47,6% dos cadernos eleitorais, a segunda maior participação política desde o plebiscito constitucional de 2021. 

Boric tem a desconfiança de partidos de direita e da classe alta, que se preocupam principalmente com a estabilidade econômica e a segurança do país. Estes grupos fizeram uma espécie de campanha de terror, que ganhou impulso após um fenômeno, que ocorreu na economia, conhecido como “Efeito Boric”, em que o dólar disparou passando a valer 876 pesos, valor mais alto desde o início da pandemia, e a Bolsa caiu 6%. 

Após a queda da Bolsa de Valores, o “Efeito Boric” começou a arrefecer, e dois dias depois o dólar se estabilizou novamente. No entanto, figuras de direita continuaram a impulsionar ideias de que o país se transformaria em uma Chilezuela, que o Estado iria expropriar as grandes empresas.

Kast também aterrorizou publicamente ao escrever em seu Twitter que Boric iria expropriar o metrô de Santiago, sendo que este já é estatal, e que o Chile estaria na miséria e passando fome em menos de dois anos. 

Apesar das expectativas negativas da direita em relação ao novo presidente, a opinião expressa pelos partidos de esquerda e pela juventude ativa do país é positiva e otimista.

A vitória de Boric marcou o fim da predominância política exercida no Chile pelos dois grandes blocos de centro-esquerda e centro-direita, que se revezavam no cenário desde o fim da ditadura, em 1990.

Além disso, as figuras políticas que chegam oficialmente ao poder, nesta sexta, e que farão parte do novo gabinete, participaram de revoluções estudantis e feministas durante os anos 2000, marcando uma Era jovem e que agora vai comandar o país. 

Na minha perspectiva, cada voto que Boric recebeu reflete um grito da sociedade chilena diante dos abusos do Estado neoliberal. São pessoas que, através da democracia, ergueram a voz para pedir mudanças e transformações reais, que podem eventualmente ajudar a classe trabalhadora e as minorias.

A eleição de Gabriel Boric se traduz em uma crítica à estrutura de poder do Estado chileno que tem sido lento para eliminar as tradições da era ditatorial que deixaram no país uma ferida aberta que ainda não foi totalmente curada. 

Sobre Boric recai a responsabilidade de levar o Chile a um novo rumo para  se chegar ao respeito, à igualdade, justiça e inclusão. Ele e sua equipe terão que resistir e negociar com a elite, que insiste em manter seus privilégios e tradições.

Boric também terá de enfrentar discussões com o seu próprio setor da esquerda que vai exigir resultados e transformações o mais rápido possível. Além do mais, terá que convencer o povo chileno de que chegará uma Era de novas oportunidades, paz social e maior estabilidade para que o país prospere. 

Minhas esperanças neste novo governo são grandes. Considerando que Boric é uma voz política que ganhou força nas revoluções estudantis, quando ainda era um universitário, o novo presidente é uma figura que transmite confiança ao conhecer a realidade do país e as necessidades da população.

O poder feminino presente neste período de eleições e a maior participação na política se reflete também na presença das mulheres em seu ministério. Se espera que alcancemos as mudanças necessárias para o Chile. É uma honra ser parte de uma nova era, guiada pela geração que procura justiça e melhorias sociais para um Chile danificado ao longo de sua história na busca por democracia. 

 

Victoria Cayres tem 18 anos, mora no Chile desde 2013, é estudante de Ciência Política na Pontifícia Universidade Católica de Santiago do Chile e correspondente do Holofote


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