Equipe de antropologia forense identifica mais 17 desaparecidos políticos da ditadura militar argentina
13 de maio de 2026 - 02h33
Por Lúcia Rodrigues
A Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) anunciou nesta terça-feira, 12, a identificação dos restos mortais de mais 17 desaparecidos políticos da ditadura militar argentina, torturados e mortos pela repressão no centro clandestino de extermínio La Perla, localizado na periferia de Córdoba.
“Eu poderia estar entre esses ossos. Cada vez que aparece uma notícia como essa, especialmente sobre Córdoba, me comove muito, porque se refere a uma coisa que me afetou diretamente”, comenta emocionado, o professor de História da USP, o argentino Osvaldo Coggiola, que estudou e militou politicamente nesse período na cidade.
A repressão sequestrou um irmão, e por pouco não o prendeu também.
Com essas 17 ossadas, sobe para mais de 850 o número de desaparecidos políticos identificados pela Equipe, que começou os trabalhos há 40 anos.
Coggiola diz que a identificação dos restos mortais avançou, no entanto, nos últimos anos, facilitado pela criação de um banco nacional de dados genéticos que permite fazer cruzamentos das vítimas com informações de parentes que procuram pelos entes desaparecidos.
Ele ressalta ainda, que apesar de Milei ter tentado destruir a área de memória, verdade e justiça, não conseguiu mexer em sua estrutura.
“Cortou os fundos, mas o memorial (que funciona na antiga Esma, a Escola Mecânica da Armada) continua funcionando. Nisso ele não pode tocar.
O ultradireitista também não conseguiu mexer nas reparações aos parentes de desaparecidos políticos, de acordo com ele. “Porque é uma coisa muito sentida na Argentina.”
Tampouco conseguiu conceder liberdade para os assassinos e torturadores.
“A vice-presidente, que reivindica a ditadura militar, foi visitá-los na prisão. Milei fala em um indulto geral, mas não apresentou projeto. Fazer uma legislação que favoreça explicitamente os repressores é muito difícil. Não passa, porque a opinião pública é contra”, frisa.
O professor explica que até mesmo quem apoiou o golpe, como os jornais, Clarín e La Nación, hoje rechaçam a ditadura militar.
E recorda: “A marcha que marcou os 50 anos do golpe militar (em 24 de março) levou mais de um milhão de pessoas para a rua”.
A Argentina contabiliza 30 mil mortos e desaparecidos políticos pelo regime militar.
Carlos Cayetano Cruspeire, Edelmiro Cruz Bustos, Víctor Carlos Díaz Rinero, Graciela María de los Milagros Doldán, José Luis Goyochea Escudero, Rosa Cristina Godoy de Cruspeire, Adrián José Ferreyra Rivero, Ester Felipe, Marta Susana Ledesma Vera de Comba, Néstor Gilberto Lellin D’Francesco, Luis Mónaco, Nélida Noemí Moreno Maza de Goyochea, Juan Carlos Navarro Moyano, Reineri Oscar Segura, Silvia del Valle Taborda, Gustavo Daniel Torres são os 16 novos identificados pela Equipe de Antropologia Forense.
O décimo sétimo desaparecido não teve o nome nem a foto divulgados por determinação da família.

Fachada e detalhe de pátio interno do antigo centro clandestino de tortura e extermínio La Perla, em Córdoba Fotos: Conadep/Pablo Tesoriere




