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LESA-HUMANIDADE

Mais um crime da ditadura militar é revelado: Exército incinerou camponeses em fornos de usinas da Paraíba, segundo MPF

Os camponeses João Alfredo e Pedro Inácio foram alguns dos mortos incinerados pela ditadura militar. Foto: Reprodução MPF

29 de maio de 2026 - 16h22

Da redação

Em um crime semelhante ao que ocorreu na Usina Cambahyba, em Campo dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, onde a ditadura militar incinerou os corpos de 12 presos políticos assassinados sob tortura na Casa da Morte, em Petrópolis, e no DOI-Codi do Rio, segundo a Comissão Nacional da Verdade, denúncia do Ministério Público Federal da Paraíba, desta semana, revela que a mesma prática foi utilizada no Estado, logo após o golpe militar de 1964.

De acordo com o órgão do sistema de justiça, o general Ednardo D’Ávila Mello, então comandante do 15º Regimento de Infantaria do Exército, coordenou uma parceria da força terrestre das Forças Armadas com os latifundiários do Estado na perseguição aos camponeses ligados às Ligas Camponesas.

Uma década mais tarde, ele se tornaria o comandante do 2° Exército, responsável pelo DOI-Codi paulista, o principal centro de tortura da ditadura militar, onde seriam assassinados o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho.

Em 1964, sob seu comando segundo o MPF,  o Exército realizava inclusive treinamentos em fazendas cedidas por latifundiários.

O financiamento à repressão aos camponeses vinha de um consórcio conhecido como Grupo Várzea, liderado pelos fazendeiros Ribeiro Coutinho e Veloso Borges, bisavô do atual governador da Paraíba, Lucas Ribeiro (PP).

Fornalhas

Na ação encaminhada à Primeira Vara Federal da Paraíba, o procurador José Godoy Bezerra de Souza relata que as usinas de açúcar cediam suas estruturas para a consumação dos crimes contra os camponeses.

“Há testemunhos convergentes de que as vítimas teriam sido conduzidas para usinas açucareiras da região, onde foram executadas e seus corpos destruídos em fornalhas de açúcar para eliminar vestígios biológicos”, diz trecho do texto.

A parceria entre Exército e latifundiários também envolvia a Polícia Militar da Paraíba.

Esse envolvimento fica explícito em dois casos.

João Alfredo Dias, o Nego Fuba, e Pedro Inácio de Araújo, o Pedro Fazendeiro, lideranças das Ligas Camponesas, foram presos e torturados logo após o golpe. Foram acusados de terem assassinado um latifundiário, crime que eles negaram.

Posteriormente, foram entregues a policiais militares na porta do quartel onde estavam presos.

Os dois engrossam a lista de desaparecidos políticos da ditadura militar.

Nunca mais

O Ministério Público Federal estabeleceu a título de indenização por danos morais coletivos o pagamento de R$ 1 milhão que deve ser destinado ao Memorial das Ligas e Lutas Camponesas de Sapé, na Paraíba.

Quer ainda que a União reveja e casse eventuais aposentadorias ou pensões por morte de militares envolvidos nos crimes.

Solicita também que sejam ajuizadas ações contra os espólios de agentes públicos envolvidos nas torturas e nos desaparecimentos forçados.

A inclusão da história das Ligas Camponesas no currículo das escolas da Paraíba, além da criação de uma Comissão Estadual da Verdade Camponesa, também são cobradas do governo do Estado.

Um pedido de desculpas tanto da União como do Estado paraibano pelas mortes e pelos desaparecimentos de João Alfredo e Pedro Inácio é outra exigência do MPF, que quer ainda que seja criado um grupo de trabalho para localizar os restos mortais das duas lideranças camponesas.

Outra exigência do Órgão é que se pesquise se algum equipamento público possui o nome dos agentes que participaram dos crimes. E em caso afirmativo, que se procedam suas substituições.

O Ministério Público Federal também quer que a disciplina Direitos Humanos e História dos Conflitos Sociais seja incluída nos currículos dos cursos que formam agentes de segurança.

Lesa-humanidade

Em 2023, a justiça federal condenou a sete anos de prisão em regime semiaberto, o ex-delegado do Dops, Cláudio Guerra, pelo crime de ocultação de cadáver, por considerar a imprescritibilidade dos crimes cometidos por ele como de lesa-humanidade.

Ele confessou no livro Memórias de uma Guerra Suja ter levado os corpos de 12 militantes políticos para serem incinerados na Usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, entre os anos de 1973 e 1975.

Na ação penal movida, em 2019, pelo procurador da República Guilherme Garcia Virgílio, do MPF em Campos, são citadas as vítimas incineradas na Usina: Ana Rosa Kucinski Silva, Armando Teixeira Frutuoso, David Capistrano da Costa, Eduardo Collier Filho, Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira, João Batista Rita, João Massena Melo, Joaquim Pires Cerveira, José Roman, Luís Inácio Maranhão Filho, Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto e Wilson Silva.


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