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ELEIÇÕES 2026

Valerio Arcary: Ninguém pode ser feliz sozinho

As urnas podem barrar a ascensão da extrema direita no Brasil. O presidente Lula concorre à reeleição à Presidência contra Flávio Bolsonaro Foto: Ricardo Stuckert/PR e Roque de Sá/Agência Senado

23 de junho de 2026 - 22h18

Por Valério Arcary

Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
Quanto mais te agachas, mais te põem o pé em cima.
Sabedoria popular portuguesa

O cenário é ruim. Um candidato neofascista, Flávio Bolsonaro, pode chegar ao segundo turno das eleições presidenciais, mesmo com seu pai tendo sido condenado à prisão, somente porque tem o mesmo sobrenome. Nas últimas semanas, no Peru e na Colômbia, as candidaturas de extrema direita de Keiko Fujimori e Abelardo de La Espriella podem ter vencido as eleições presidenciais. A contagem dos votos ainda não foi encerrada, mas a situação é desanimadora. Kast já tinha vencido no Chile, há poucos meses e, no ano passado, Rodrigo Paz venceu na Bolívia, depois de vinte anos de governos liderados pelo MAS, e Milei conquistou maioria parlamentar na Argentina. A Venezuela foi, militarmente, atacada e Nicolás Maduro e Cília Flores foram raptados. Cuba está diante de um bloqueio energético sem precedentes, e Trump já anunciou que pode “tomar a ilha”. Os EUA estão, também, interferindo em todas as disputas eleitorais. Ou seja, a situação é muito grave. Nesse contexto, o desfecho das eleições de outubro no Brasil está ainda indefinido.

Uma questão que se coloca para todos nós é saber se é ou não necessário discutir com os reacionários. Como devemos fazer a luta política? Será que vale a pena? Sim, vale a pena. Mas não vai ser suficiente somente argumentar defendendo o legado de realizações e entregas do governo Lula. Claro que é necessário e justo fazê-lo. Há uma luta de visões de mundo. Podemos vencer na luta ideológica porque nossos argumentos são mais fortes.

É necessário dialogar com milhões de pessoas que estão influenciados por ideias reacionárias. É necessário por três razões principais. Primeiro, porque eles são muitos. Segundo, porque não são poucos os trabalhadores e jovens influenciados pelas suas ideias. Terceiro, porque é na discussão que nos educamos, temperamos, e fortalecemos a nós mesmos. Insistir que é necessário não quer dizer que é fácil. Não é fácil. Não é uma experiência divertida. É uma dureza. Trata-se de uma luta que exige paciência, autocontrole, firmeza, portanto, dedicação.

Reacionários são conservadores que defendem a preservação da ordem atual. Esse é o seu calcanhar de Aquiles. Têm a ilusão de que a sociedade está dividida entre as pessoas “do bem”, e os outros. Esta visão é infantil. Todas as pessoas defendem os seus interesses da maneira que podem em função da inserção que têm na sociedade. Os ricos e acomodados querem manter seus privilégios, e a maioria da classe trabalhadora aspira a ter uma vida melhor. O confronto é inevitável. O bolsonarismo defende que o capitalismo funciona, as regras são corretas, mas as pessoas decepcionam. A verdade é o contrário. O sistema é que não funciona, a maioria das pessoas apenas sobrevive e se vira, apesar do sistema.

O bolsonarismo se autoproclama como oposição ao sistema, mas defende um choque de mais capitalismo. Acontece que o sistema é o capitalismo. Acreditam que o maior problema do Brasil é a desonestidade, a delinquência e a corrupção. Esses problemas são reais, mas são consequência e não a causa dos problemas do país. Defendem que há muitos direitos e poucos deveres. Devemos dizer o contrário. Há muitos deveres e poucos direitos. As regras são injustas. Há que mudar as regras, e defender as pessoas.

Precisamos entender a mentalidade de um reacionário. Um reacionário é alguém que está convencido de que as pessoas são, naturalmente, desiguais e, portanto, é inevitável que haja alguns muito ricos, e uma massa de pobres. Sendo alguns mais corajosos, inteligentes e até generosos do que outros, a luta contra a desigualdade social premiaria a mediocridade, sacrificaria o talento, estimularia a preguiça, alimentaria a inveja. Vivem a ilusão de que a sociedade está dilacerada entre ricos e pobres porque alguns poucos são mais capazes. Portanto a igualdade social seria impossível. Pior, seria disfuncional. Seria uma distopia monstruosa. Porque promover a igualdade social sacrificaria o progresso e a prosperidade.

Ser de esquerda não é defender que as pessoas têm capacidades iguais. Não têm. O que prevalece na condição humana é a diversidade. Temos habilidades variadas que se complementam e se compensam. Isso é enriquecedor. Mas as necessidades materiais e culturais mais intensas são comuns. As diferenças sociais que fragmentam a sociedade em classes não repousam nas diferentes capacidades dos indivíduos. Os ricos não são nem mais talentosos, nem esforçados e não são pessoas melhores. Essa idealização da meritocracia é um veneno ideológico para tentar justificar o absurdo. Os talentos estão distribuídos em todas as classes sociais. Mas como os filhos da maioria do povo têm menos oportunidades, milhares e milhares de jovens com aptidões excepcionais têm os destinos de suas vidas, tragicamente, sacrificadas. A aposta socialista é que uma sociedade socialista permitiria o pleno desenvolvimento das capacidades de todos. Nosso coletivismo se inspira na solidariedade para favorecer a autonomia dos indivíduos, não a sua anulação.

A aposta socialista não se deixa seduzir, tampouco, pelo mito de um progresso a qualquer preço. Assim como deve haver regulação social da riqueza, deve haver limites políticos na exploração da natureza. O perigo de uma catástrofe ambiental provocada pelo aquecimento global sinaliza até onde pode ir a loucura da voracidade capitalista.

Reacionários defendem que o socialismo seria a tirania da chatice, da caretice, do tédio e, no limite, a destruição da liberdade. Para um reacionário, liberdade e igualdade são valores incompatíveis. Ou uma, ou outra. Porque o direito à liberdade seria o direito de lutar pelo enriquecimento, a propriedade privada, a herança. São entusiastas furiosos da ambição e da cobiça, são devorados pela fantasia da avidez: de sucesso, de fortuna, de glória, de poder. Estão convencidos de que a luta pela igualdade social seria incompatível com a busca da felicidade pessoal.

Nós respondemos que a luta pela felicidade pessoal é justa. Mas deve haver limites. Ninguém pode ser feliz sozinho. Ambição sem limites degenera em ganância, em abuso, em transgressão sobre os direitos dos outros. Todos temos desejos e isso é legítimo. Não é admissível, contudo, que a felicidade de um seja feita ao custo do martírio de muitos. Não é aceitável que a liberdade incondicional de poucos legitime a tirania da maioria.

O que fundamenta uma visão de esquerda é a defesa de que as necessidades humanas mais intensas são iguais. No estágio de desenvolvimento histórico em que vivemos não há mais razão alguma para que haja tanta gente condenada à miséria. Não há razão alguma para que não haja oportunidades para todos. Ser de esquerda significa defender que todas as pessoas devem ter direitos e deveres iguais.
Portanto, para a esquerda igualdade e liberdade são valores indivisíveis. Quanto maior for a igualdade, maior será a liberdade, e vice-versa. Não pode haver liberdade entre desiguais. Só seremos livres, quando todos forem, igualmente, livres. Poder e dinheiro é que são indivisíveis. Quando alguns poucos, ou 1%, controlam a riqueza, controlam, também, o poder. Tanta riqueza nas mãos de tão poucos não se explica pelo merecimento, aptidão, valor ou mérito, mas pela exploração da maioria.

A desigualdade social não é o motor de progresso, de inovação, de prosperidade. A ideia de que as pessoas não estariam dispostas a fazer nada, se não tivessem apavoradas pelo medo da miséria ou da repressão não tem fundamento histórico algum. As maiores mentes da história não criaram as suas obras para enriquecer. O dinheiro não é o único estímulo. Há outros incentivos, impulsos, inspirações que animam a mente e o coração das pessoas. A competição desumana, a insegurança generalizada, a injustiça absurda ameaçam a vida civilizada e são as sementes da guerra.

Reacionários são céticos sobre a condição humana. Estão convencidos de que a natureza humana é pouco animadora. Um reacionário acredita que a maioria das pessoas é, incorrigivelmente, egoísta, calculista e conflitiva. Seríamos, naturalmente, rivais uns dos outros, portanto, irremediavelmente, adversários. Observam, desenganados, como as antipatias, as invejas, os rancores, e até os ódios dilaceram as relações humanas. Em consequência, consideram razoável que cada um deva se preocupar, essencialmente, com os seus interesses, ou dos seus familiares. Ninguém mais importa. O Estado deve se dedicar a preservar a ordem. Por isso, a histeria ingênua com o papel das Forças Armadas. Querem segurança. Depois é a “luta livre” no espaço do mercado. Essas ideias simples têm muito peso na sociedade. Não é fácil para um socialista dialogar, argumentar, persuadir, enfim, conversar com eles.

Esta visão do mundo é incompatível com a ideia chave do socialismo. O valor moral que inspira o socialismo é a esperança de que a solidariedade deve ser a referência, o critério e parâmetro que organiza a sociedade. Esta barreira na discussão é um perigo. Há dois erros que não deveríamos cometer diante dessa barreira.

O primeiro é desistir da conversa. Esse perigo é o maior de todos. O projeto socialista é muito minoritário na sociedade brasileira. Na verdade, a defesa do socialismo é marginal. Existe mal-estar com a injustiça. Existe alguma audiência para a defesa de uma regulação do capitalismo com a introdução de reformas progressivas, civilizatórias, que estabeleça limites para a superexploração e garanta uma redução da desigualdade social. Mas a necessidade de ir além do capitalismo é compreendida por uma parcela muito pequena de trabalhadores e jovens. E a marginalidade gera uma mentalidade, uma cultura, um modo de vida. Estamos tão em minoria que somos, até involuntariamente, sectários. Preferimos conversar com aqueles que pensam como nós. Encontramos conforto emocional na aprovação de nossas ideias.

O segundo erro é argumentar que a natureza humana é, naturalmente, altruísta, gentil, solidária. Não somos assim e, infelizmente, é mais complicado. Nós somos plásticos. Isso quer dizer que nos adaptamos, nos ajustamos e transformamos. Se encorajados a ser cruéis podemos agir com maldade. Se encorajados a agir com grandeza podemos ser bondosos. São as relações sociais que determinam quais são os estímulos materiais, morais e culturais dominantes. Quando os estímulos favorecem a fraternidade, a imensa maioria das pessoas age de forma decente. Por isso, é possível mudar a vida.

Valerio Arcary é doutor em História pela USP, a Universidade de São Paulo, e  professor aposentado do Instituto Federal de São Paulo. 


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