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HISTÓRIA DA RESISTÊNCIA

Assista ao documentário Lauri sobre estudante da USP metralhado pela ditadura militar

Memorial em concreto na Praça do Relógio, na USP, em homenagem aos estudantes, professores e funcionários mortos e desaparecidos pela ditadura militar. Lauriberto José Reyes, o Lauri, é um dos homenageados Foto: Lúcia Rodrigues

27 de setembro de 2025 - 09h15

Por Lúcia Rodrigues

Os tempos sombrios dos Anos de Chumbo são o pano de fundo do documentário Lauri, do diretor Beto Novaes.

Estudante de Engenharia da Poli, a Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo) e morador do Crusp, o Conjunto Residencial da Universidade, Lauriberto José Reyes, o Lauri, era uma importante liderança estudantil no final dos anos 1960.

Lauriberto José Reyes, o Lauri Foto: Arquivo Memorial da Resistência

Foi um dos responsáveis pela organização do 30° Congresso da UNE, a União Nacional dos Estudantes, que ocorreu em Ibiúna, interior do Estado de São Paulo, em 1968.

Preso com centenas de estudantes na invasão do congresso pelas forças de repressão da ditadura militar, Lauri teve outro duro golpe no dia seguinte a sua prisão.

Seu pai foi atropelado e morto por um delegado, em São Carlos, quando o policial dirigia em alta velocidade para tentar interceptar uma passeata de estudantes que ocorria no centro daquela cidade do interior paulista, que também era terra natal de Lauri.

Resistência 

Com o fechamento do regime, Lauri ingressa na ALN, a Ação Libertadora Nacional, organização liderada por Carlos Marighella, e parte para a luta armada.

Caçado pelos militares, sequestra, com outros três companheiros da ALN, um avião da Varig e o redirecionam para Cuba, em 4 de novembro de 1969, mesma data em que a ditadura executava Marighella.

Na Ilha, participa de treinamento para se qualificar para o enfrentamento às forças do regime que estava cada vez mais feroz.

Volta ao Brasil como guerrilheiro do Molipo, o Movimento de Libertação Popular, uma dissidência da ALN que ocorreu em Cuba, e é executado pela repressão em 27 de fevereiro de 1972.

A versão apresentada pela ditadura era a de que Lauri e o companheiro de organização e também estudante do Colégio de Aplicação da USP, Alexander José Ibsen Voerões, teriam sido mortos em tiroteio com agentes militares.

Décadas após suas mortes, testemunhas que presenciaram os assassinatos revelaram que não houve tiroteio. Lauri foi metralhado pelos repressores e teve o corpo jogado dentro do porta-malas de um veículo da ditadura.

A família soube de sua morte pelo Jornal Nacional.

Rose, uma de suas irmãs, e a mãe assistiam ao telejornal da Rede Globo quando ouviram o locutor anunciar a morte.

“Eu estava com um prato de comida na mão, sentada no sofá, eu e ela, quando o cara diz: ‘Morto terrorista Lauriberto José Reyes.’ O prato caiu no chão. Minha mãe ficou assim (em choque), e eu também”, descreve a irmã, em cena do documentário.

Homenagens da USP

O nome de Lauriberto José Reyes é um dos que integram o Memorial da USP, erguido em concreto, em homenagem aos alunos, professores e funcionários da Universidade que tombaram na luta contra a ditadura.

O monumento com o nome dos 47 membros da comunidade universitária escritos em aço, está localizado na Praça do Relógio, no centro do campus da Cidade Universitária, no Butantã, zona oeste da capital paulista. Veja vídeo abaixo.

Em março deste ano, a família de Lauri também recebeu o diploma honorífico dele entregue pela USP, com mais três familiares de estudantes da Poli assassinados pelo regime ditatorial.

A Poli perdeu quatro alunos. Além de Lauri, Luiz Fogaça Balboni, Manuel José Nunes Mendes de Abreu e Olavo Hansen.

Participaram da solenidade entre outras autoridades acadêmicas, a vice-reitora da USP, a professora de Sociologia Maria Arminda do Nascimento Arruda, e o diretor da Escola Politécnica, o professor Reinaldo Giudici.

A Universidade está diplomando em cada uma de suas faculdades, os estudantes mortos pela ditadura militar que não puderam concluir seus cursos em função da repressão sofrida.

Diplomação honorífica na Escola Politécnica da USP. Da esq. para a dir., a vice-reitora da USP, professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, a irmã de Lauri, o irmão de Luiz Fogaça Balboni, a irmã de Manuel José Nunes Mendes de Abreu, a irmã de Olavo Hansen e o diretor da Poli, professor Reinaldo Giudici Foto: Lúcia Rodrigues

Legado

O diretor do documentário, Beto Novaes, é casado com Regina, uma das irmãs de Lauri, e resolveu contar a história do cunhado, que ele conhecia desde menino.

“Era importante registrar o legado de Lauri e da geração de 68 na luta de resistência à ditadura militar. Eu quis resgatar fragmentos e formar o personagem. A imprensa ligava a luta armada ao terrorismo. Mas era uma luta política. O Lauri entrou na política pela cultura”, enfatiza.

Professor aposentado da Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Novaes já realizou outros documentários, mas nenhum com esse teor político.


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