Homenagens a Vladimir Herzog neste sábado, 25, marcam 50 anos da morte sob tortura pela ditadura militar
24 de outubro de 2025 - 11h48
Por Lúcia Rodrigues
Várias homenagens ao jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, têm ocorrido ao longo do mês de outubro para marcar os 50 anos de sua morte sob tortura no DOI-Codi de São Paulo, o principal centro de repressão do regime ditatorial.
Mas neste sábado, 25, elas são ainda mais especiais porque coincidem justamente com a data em que Vlado foi assassinado. Acrescida da também coincidência com o dia da semana em que ocorreu a morte sob tortura.
Pela manhã, às 10h, será realizada uma visita guiada ao DOI-Codi conduzida pelo historiador César Novelli Rodrigues, do Núcleo de Preservação da Memória Política.
Ele considera que o retorno ao local onde os torturadores da ditadura militar mataram Vlado é importante porque resgata a história de um tempo ainda desconhecido por muitos.
“Vladimir Herzog foi morto por acreditar em uma sociedade justa e fraterna. Foi morto pelo Estado, pelas mãos de agentes que defendiam ‘Deus, Pátria e Família’. Conhecer sua história é necessário para a memória coletiva de uma sociedade, para fortalecer uma educação para o Nunca Mais”, enfatiza.

Os torturadores ainda tentaram montar a farsa do suícido Foto: Silvaldo Leung Vieira
Ele considera que falar sobre a morte de Herzog contribui para o processo de Justiça de Transição que deveria ter ocorrido no Brasil. “Que se fundamenta em quatro pilares: direito à memória e à verdade, reforma das instituições, reparações e responsabilização criminal”, destaca.
O historiador acredita que os desdobramentos da visita têm um caráter formativo e podem suscitar nas pessoas que participam da atividade o envolvimento em torno do tema.
“Mais pessoas poderão reivindicar que instituições públicas detentoras da força do Estado, como as polícias, Forças Armadas e o judiciário sejam reformados . Também podem reivindicar que sejam criados espaços de memória em lugares onde aconteceram atrocidades de violência estatal, como é o caso do DOI-Codi, atual 36ª Delegacia de Polícia da Vila Mariana.”
Com mais pessoas conhecendo a história do Brasil, Novelli Rodrigues avalia que aumenta a possibilidade de a ADPF 320, que solicita ao STF a reinterpretação da Lei da Anistia de 1979, para a punição de torturadores e assassinos que agiram na ditadura militar, avançar em sua tramitação no Supremo.
“É imperativo que o Estado pare de jogar para debaixo do tapete os crimes cometidos durante a ditadura militar e leve a julgamento os perpetradores de crimes de lesa-humanidade contra a sociedade brasileira”, reforça.
A ADPF (Ação Direta de Preceito Fundamental) 320, impetrada pelo PSOL em 2014, está parada no Supremo Tribunal Federal desde então.
A relatoria está a cargo do ministro Dias Tofolli, o mesmo que já declarou que o golpe militar de 1964 foi um movimento. Além de atribuir legitimidade ao período e ainda conferir o status de Poder Moderador aos militares.
As afirmações ocorreram em 2018 durante uma palestra na Faculdade de Direito da USP, quando era presidente do STF.
“Depois de aprender com o atual ministro da Justiça, Torquato Jardim, eu não me refiro nem mais a golpe nem a revolução de 1964. Eu me refiro a movimento de 1964”, afirmou à época.
E foi além: “Os militares foram um instrumento de intervenção. Se algum erro cometeram foi de, ao invés de serem o (poder) moderador, que, em outros momentos da história, interveio e saiu. Eles acabaram optando por ficar, e o desgaste de toda a legitimidade desse período acabou recaindo sobre essa importante instituição nacional que são as Forças Armadas, também responsáveis pela nossa unidade nacional”.

O ministro do STF Dias Toffoli Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Missa na Sé
Às 19 horas deste sábado, a Catedral da Sé volta a ser o palco de outra cerimônia inter-religiosa em homenagem à memória de Vlado.
Foi ali que a missa de sétimo dia do jornalista foi transformada igualmente em uma solenidade ecumênica pelo então cardeal de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, que convidou para co-celebrarem com ele o ato religioso, o reverendo presbiteriano Jaime Wright e o rabino Henry Sobel.

Ato ecumênico lotou a Catedral da Sé em 1975 Foto: Acervo Instituto Vladimir Herzog
Neste sábado, está prevista a participação do coro Luther King na homenagem. A atriz Fernanda Montenegro também é aguardada para a leitura da carta de dona Zora Herzog, mãe de Vlado.
Judeu da Iugoslávia, atual Croácia, Herzog fugiu com a família ainda criança das garras do regime nazista. No Brasil, militou no PCB (Partido Comunista Brasileiro).
Trabalhou na BBC de Londres e em redações como a revista Visão e o jornal O Estado de São Paulo, Estadão. Também se dedicou ao cinema documentarista.
Quando foi preso pelo DOI-Codi, era diretor de Jornalismo da TV Cultura e professor de Jornalismo da ECA-USP, a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
Recentemente a Congregação da ECA-USP aprovou por unanimidade sua indicação para receber o título de Doutor Honoris Causa in memoriam da Universidade de São Paulo.



