Livro sobre dirigente da ALN e organizador da primeira greve após golpe militar, será lançado no Rio
09 de dezembro de 2025 - 10h27
Da redação
O Livro Hélcio – Alex, Toninho, Ernesto, Gomes, Nelson, Fradinho conta a trajetória de vida e política de Hélcio Pereira Fortes, dirigente da ALN, a Ação Libertadora Nacional, assassinado sob tortura pela ditadura militar, em janeiro de 1972.
Organizado pelo irmão do revolucionário, Délcio Pereira Fortes, e editado pela Liberdade de Ouro Preto, reúne depoimentos de ex-companheiros, entre eles os ex-ministros Eleonora Menicucci e Nilmário Miranda.
A coletânea será lançada na próxima terça-feira, 16, às 18h, na ASA, a Associação Scholem Aleichem, na rua São Clemente, 155, em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro.
Mineiro de Ouro Preto, Hélcio começou a militância política ainda adolescente. Aos 15 anos se filiou ao PCB, o Partido Comunista Brasileiro. Atuou nos movimentos estudantil e operário e na Corrente, organização mineira de resistência à ditadura militar.
Em 1968, foi um dos organizadores da greve dos metalúrgicos de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, a primeira paralisação de trabalhadores após o golpe de 1964.
Entrou na ALN em 1969 e tornou-se dirigente nacional da organização armada de resistência à ditadura militar após a morte sob tortura do comandante Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, em outubro de 1970. Hélcio também comandou a ALN no Rio de Janeiro.

Hélcio Pereira Fortes Foto: Memorial da Resistência
Preso em janeiro de 1972 por agentes do DOI-Codi da rua Barão de Mesquita, no Rio. É transferido para o centro de tortura de São Paulo, comandado pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, onde foi morto sob tortura.
A versão oficial da repressão, que alegava que Hélcio havia sido morto em tiroteio, foi desmentida por Darci Toshiko Miyaki, combatente da organização torturada no mesmo período.
Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, ela relatou que quando o irmão de Hélcio foi ao DOI-Codi reivindicar o corpo, o guerrilheiro ainda estava sendo torturado a uns 20 metros de distância.
Geração 68
O empresário Flávio Salles, ex-combatente da ALN e companheiro de Hélcio, também assina um dos depoimentos do livro. Ele ressalta que a repressão ceifou uma geração de talentos extraordinários.
“Hélcio era um puro sangue da ALN, tinha uma sensibilidade política extrema e cultura marxista.”
E faz questão de enfatizar que os combatentes da ditadura não entregaram suas vidas, mas as tiveram roubadas pela repressão militar.
“Não é verdade que as pessoas que militaram no movimento de resistência à ditadura militar, na luta armada contra a ditadura militar deram a vida. A vida foi tirada deles”, frisa.
Enterrado como indigente
O corpo de Hélcio foi enterrado pela repressão como indigente no Cemitério Dom Bosco, em Perus, na periferia de São Paulo.
Só em 1975, a família conseguiu localizar os restos mortais e os levou para Ouro Preto, sepultando-os na Igreja São José.
O combatente da ALN dá nome a ruas em Ouro Preto, Belo Horizonte e no Rio de Janeiro.
Em 2017, foi homenageado póstumamente pela Câmara Municipal do Rio com a medalha Pedro Ernesto.
Sua certidão de óbito com a verdadeira causa mortis foi entregue ao seu irmão, Délcio, pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, em agosto deste ano.
Agora, no documento corrigido consta: “morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro contra dissidentes políticos durante o regime ditatorial instaurado em 1964”.

Fac-símile da capa do livro Hélcio



