Há 55 anos, ditadura militar matava sob tortura jornalista Câmara Ferreira, comandante da ALN
23 de outubro de 2025 - 01h30
Por Lúcia Rodrigues
A história de Joaquim Câmara Ferreira, o comandante Toledo da ALN, a Ação Libertadora Nacional, foi esculpida nas lutas e batalhas travadas desde os 20 anos de idade, quando ingressou no Partido Comunista em 1933, até ser morto sob tortura aos 57 anos, em 23 de outubro de 1970, no sítio clandestino 31 de Março, durante uma sessão de suplícios imposta por algozes comandados pelo delegado-torturador Sérgio Paranhos Fleury, então chefe do Dops, um dos centros da repressão mais temidos.
O jornalista Câmara Ferreira já havia resistido com valentia às brutais torturas da polícia política da ditadura do Estado Novo, comandada por Filinto Müller. Nessa época, dirigia o jornal do Partido Comunista. Preso em 1939 e condenado há sete anos de cadeia, só seria libertado com a anistia.
Em 1946, foi eleito vereador em Jaboticabal, interior do Estado de São Paulo, cidade onde viveu quando era criança. Mas a atividade parlamentar durou pouco. O PCB foi colocado na ilegalidade no ano seguinte e todos os parlamentares da legenda tiveram os mandatos cassados.
Toledo voltaria a fazer, o que já fazia antes da prisão: atuar como jornalista, desta vez nos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, e organizar clandestinamente os trabalhadores. Nesse período também fez cursos de formação política em Moscou.
De volta ao Brasil, organizou a greve geral de 1953, em São Paulo. Foi preso em 1964, com o golpe militar. E posteriormente condenado à revelia a dois anos de prisão.
Cinco anos depois estaria no centro da principal operação de enfrentamento à ditadura militar, ao dar o aval para a ação conjunta entre a ALN e o MR-8, na captura do embaixador estadunidense, Charles Burke Elbrick, em 4 setembro de 1969.
Ao lado de Virgílio Gomes da Silva e Manoel Cyrillo de Oliveira Netto, comandantes da ação de captura, permaneceu com os guerrilheiros na casa da rua Barão de Petrópolis, 1.026, no Rio de Janeiro, de onde o embaixador só sairia após a ditadura libertar os 15 presos políticos exigidos na troca pelo diplomata.
Dois anos antes, em 1967, havia rompido com o PCB junto com Carlos Marighella, por discordarem da linha política da legenda, que descartava o enfrentamento armado aos militares golpistas.
Fundaram a ALN, a principal organização revolucionária de combate à ditadura militar durante os Anos de Chumbo.
Homem dos bastidores, fazia uma dupla perfeita com Marighella, o rosto público da ALN.
Após o assassinato do companheiro numa emboscada montada por Fleury, que também seria o responsável por sua morte, Toledo ainda conseguiu resistir por mais de um ano organizando a resistência à ditadura.
História de luta
Seu legado de vida devotada à ação política na defesa dos trabalhadores virou dissertação de mestrado, transformada em livro publicado pela editora da UFRJ, a Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2010, data que marcou os 40 anos de seu assassinato.
Revolucionário da Convicção, do historiador Luiz Henrique de Castro Silva, forneceu dados importantes para solidificar o embasamento da decisão da Comissão de Anistia, que reconheceu que Câmara Ferreira não havia cometido nenhum crime e pediu perdão em nome do governo brasileiro à sua família.
O governo federal, comandando pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, concedeu anistia póstuma ao dirigente da ALN.
Ainda em 2010, familiares de Câmara Ferreira, também receberam a Medalha Anchieta in memoriam, concedida pela Câmara Municipal de São Paulo, por iniciativa do então vereador petista Ítalo Cardoso.
Em 2013, centenário de seu nascimento, Toledo também foi homenageado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo.
A entidade fez sua refiliação simbólica aos quadros da organização sindical e entregou à sua família, a cópia de sua ficha original de sindicalização com o número 432, que ele tinha recebido quando se associou ao Sindicato dos Jornalistas.
Ele havia perdido o vínculo sindical em 1969, quando os militares radicalizaram a repressão contra as lideranças da esquerda armada.
Joaquim Câmara Ferreira também dá nome a uma rua em Brasilândia, uma das regiões mais pobres da capital paulista. Certamente, estaria feliz por ver seu nome estampado nas placas de um logradouro onde vivem os pobres pelos quais tanto lutou.



