Pescadores denunciam Porto de Suape por matança de cavalos-marinhos, tartarugas e peixes em Pernambuco
23 de outubro de 2025 - 18h04
Por Lúcia Rodrigues
Uma obra de dragagem para o aprofundamento da calha interna do Porto de Suape, localizado entre os municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, em Pernambuco, está matando a fauna marinha desse ecossistema, segundo denúncias de pescadores da região.
A reportagem de Holofote conversou com vários pescadores que preferiram manter o anonimato com receio de possíveis retaliações.
Mas todos foram unânimes em afirmar que as obras de dragagem do Porto para receber navios gigantes, iniciadas em 29 de agosto, estão matando cavalos-marinhos, tartarugas e peixes, inclusive, alguns deles ameaçados de extinção, como é o caso do peixe mero.
Eles encaminharam vídeos e fotos, que podem ser vistos abaixo, para comprovar o que dizem.
Edson Antônio da Silva, o Edinho, foi o único pescador que quis ter o nome publicado na reportagem. Ele preside a Associação dos Moradores de Tatuoca, uma comunidade de povos tradicionais na região de Suape. “Sou descendente de indigenas.”
Com 53 anos, ele conta que é pescador raiz. Desde os quatro, cinco anos de idade já saía com os pais, também pescadores, mar adentro para buscarem o sustento.
A profissão é uma tradição familiar. “Meu avô também era pescador, morreu com 102 anos”, frisa orgulhoso.
Ele critica os dirigentes do Porto de Suape por não darem ouvidos aos apelos dele e de outros pescadores para que a dragagem não ocorra nesta época do ano.
“Se fosse no períodos das chuvas, a água dos rios levaria os resíduos para o alto-mar, mas agora a lama processada pela draga fica no mangue matando cavalos-marinhos, peixes, siris. O descaso é muito grande”, lamenta.
“Têm muitos pescadores revoltados, mas têm medo de se manifestar.”
Nesta terça-feira, 21, Edinho e ativistas de movimentos sociais e militantes de defesa do meio ambiente se reuniram com a presidente da Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa de Pernambuco, a deputada Rosa Amorim, do Partido dos Trabalhadores, para denunciar a agressão ambiental e solicitar apoio para o desligamento das dragas.
Segundo a parlamentar, a Comissão que preside na Assembleia fará uma vistoria no local onde está ocorrendo a matança dos animais marinhos. Ela também afirma que vai encaminhar a denúncia ao Ministério Público Federal e pedir informações ao órgão ambiental que liberou as dragas.
“Vamos encaminhar um pedido à CPRH (Agência Estadual de Meio Ambiente que permitiu que a dragagem fosse realizada), para cobrar detalhes sobre a autorização e o cumprimento das medidas compensatórias. Também vamos formalizar uma denúncia junto ao Ministério Público Federal”, ressalta.
A deputada também diz estar preocupada com os pescadores. “Vamos apurar as denúncias de assédio e ameaças contra eles.”
Cala-boca
Os pescadores entrevistados pela reportagem de Holofote denunciam que a direção do Porto de Suape estaria comprando o silêncio de parcela dos pescadores, que receberiam um salário mínimo e uma cesta básica, em troca de não criticarem o mortícinio provocado pelas dragas.
“Podem me pagar cinco, seis salários. Eu não quero. Eu quero a minha sobrevivência, eu nasci na Ilha de Tatuoca. Quero continuar pescando e não vendo o meu local de trabalho morrer. Isso vai demorar uns 10, 15 anos para recuperar, se recuperar”, lamenta Edinho.
Em nota, a assessoria de imprensa do Porto de Suape nega a compra do silêncio, mas informa que está sendo destinado auxílio financeiro para 548 pescadores.
“Foi negociado um valor de auxílio pecuniário e uma cesta básica durante o período da dragagem (de agosto de 2025 a janeiro de 2026). Um desembolso mensal de R$ 831.864. Esse auxílio foi fruto de negociação entre as partes, sem qualquer imposição legal.”
Ainda em nota, a assessoria argumenta que a dragagem está amparada na decisão da CPRH, órgão licenciador, que autorizou a execução da obra. E nega qualquer morte na vida marinha.
“Ressalta-se que, até o momento, não houve qualquer intercorrência que tenha resultado em morte de cavalos-marinhos, tartarugas, entre outros exemplares da fauna marinha”, diz trecho da nota enviada pelo Porto de Suape.

Peixe mero morto pela ação das dragas do Porto de Suape
O peixe mero está ameaçado de extinção no país. Desde 2022, sua pesca é proibida por lei em todo o território nacional e considerada crime ambiental.
Mas é encontrado por pescadores boiando morto próximo às dragas de Suape.
A preservação dessa espécie, que é topo de cadeia alimentar, é considerada decisiva para manter a saúde de ecossistemas, como manguezais e recifes de coral.
Um dos pescadores entrevistados pela reportagem afirma que já foi encaminhada denúncia para a associação que protege o peixe mero no Brasil e ao Ministério Público Federal relatando a morte.
Os cavalos-marinhos nadam muito devagarinho, segundo Edinho. São presas fáceis. “Nesta época do ano entram no rio para desovar. Estão no mangue e sofrem as consequencias das dragas de Suape.”
As tartarugas também têm sido vítimas fáceis das dragas. Várias têm sido encontradas cortadas pela ação da dragagem.

Tartaruga cortada ao meio pelas dragas
Os robalos (camurins) também têm sido traçados pelas dragas.
Até mesmo os baiacus não estão resistindo a ação da dragagem.
O ataque à natureza também atinge outras áreas do entorno do Porto. A Ilha da Cocaia está sob ameaça.
Mardônio Cavalcanti, militante na desfesa do meio ambiente e integrante do Movimento Cocaia Vive, explica que a área pode ser degradada por outra obra do Porto de Suape.
“Querem instalar um terminal de minérios. Pegar um lugar como a Ilha da Cocaia, que tem pontos arqueológicos e praias com areia branquinha, para fazer isso. É um absurdo”, enfatiza indignado.
Ele é um dos que apoia a luta dos pescadores que denunciam a matança da fauna marinha provocada pelas dragas que ampliam a calha do Porto de Suape.
“É o capitalismo selvagem. Eles (direção do Porto) nao ligam para a gente e a destruição provocada. É uma área de estuário, tem microorganismos, qdo destrõem, provocam vários problemas. A morte dos cavalos-marinhos são a prova disso, porque esses animais só sobrevivem em água saudável.”
Indignação
“É muito desespero. Trabalho com pesca desde os 13 anos, estou com 45. Nasci e me criei dentro do mar. Tô em cima dos arrecifes e a água tá feito uma lama. Estão estragando os arrecifes. Os peixes estão morrendo”, descreve angustiado um dos pescadores, enquanto conversa com a reportagem.
“A gente não pode ficar calado, tem de botar a boca no mundo. É muita destruição. O que eles (direção do Porto de Suape) tão fazendo vai destruir em seis meses, o que vai demorar 15 anos para recuperar. Nesta época do ano, era para a água estar cristalina, mas depois da draga está sempre turva, suja.”
Assim como Edinho, ele também vem de família de pescadores. “Minha mãe foi pescadora, se aposentou como pescadora. Meu pai pescava em alto-mar. Eu pesquei em alto-mar”, recorda.
“Hoje a gente vê só destruição. Se a dragagem fosse feita no inverno, a água da chuva levava a lama para o oceano. Dragando na primavera e no verão, é matança.”
“Antes a gente encontrava cavalos-marinhos em tudo que era canto, agora vê eles mortos. Fico muito triste. É muita vida marinha que tão matando.”
“Até os baiacus e os bagres, que são fortes, estão morrendo, eles vem pro manguezal para se alimentar.”
“Várias tartarugas com mais de 100 anos, mortas toradas (cortadas) no meio pela draga.”
Outro pescador alerta: “Onde não têm tartarugas, os tubarões vem atacar os humanos”.
Ele também denuncia que o Porto de Suape está tentando ocultar a mortandade dos animais marinhos. Os funcionários estariam sendo orientados a recolher os mortos e enterrá-los. “Recolhem para não aparecerem na praia.”
O pescador revela ainda que as marisqueiras estão reclamando de coceira e frieiras. Essas mulheres trabalham dentro d’água de cinco a seis horas por dia, às vezes até mais. A alteração no ecossistema provocada pela ação das dragas já estaria se refletindo em doenças de pele nessas trabalhadoras.
“Elas também são contra as dragas”, enfatiza.
Luta desigual
A corrida contra o relógio para evitar mais mortes na fauna marinha de Suape tem de ser na mesma intensidade a das dragas do consórcio holandês-belga Van Oord/Jan De Nul, que trabalham ininterruptamente.

A obra está orçada em R$ 217 milhões, dos quais R$ 117 milhões são destinados pelo governo de Pernambuco e R$ 100 milhões pelo governo federal, por meio do Ministério de Portos e Aeroportos, dentro do Programa de Aceleração do Crescimento.
A assessoria de imprensa do Porto de Suape informa que a obra colocará o complexo portuário no grupo de portos públicos do país com maior profundidade, o que vai permitir que receba navios gigantes.
Mas há quem se preocupe com as consequências das alterações provocadas no ecossistema da região por essa obra, que além de matar a fauna marinha vai impactar diretamente na vida dos pescadores que tiram o sustento do mar e manguezal.
A reportagem conversou com o professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Cristiano Ramalho, que está à frente da Secretaria Nacional da Pesca Artesanal do governo Lula, para saber o que o órgão pode fazer para evitar esses impactos.
Com tradição acadêmica na defesa desses trabalhadores, Cristiano explica que os problemas causados pelo Porto são crônicos há décadas.
“Desde a própria construção e ampliação há denúncias dos impactos provocados pelo desmatamento das áreas de manguezal, da retirada de arrecifes, da mudança no curso dos rios. Já foi muito agressivo para a biodiversidade.”
Com apenas 40 funcionários, diretos e terceirizados, para dar conta de aproximadamente oito mil quilometros de costa e milhares de quilometros de rios, ele conta que precisa receber uma denúncia formal para poder agir.
“É preciso a formalização da denúncia para irmos in loco defender os territórios de pesca artesanal. No que nos compete, iremos ir fazer nosso papel de defesa dessa comunidade. Mas é preciso ser provocado, para ter atuação legal.”



