Universidade gaúcha que homenageou ditador Geisel é mantida por empresários fascistas, diz Krischke
25 de novembro de 2025 - 17h15
Por Lúcia Rodrigues
O campus de Bento Gonçalves da Universidade de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, inaugurou um memorial em homenagem ao general ditador Ernesto Geisel, em sua biblioteca, na semana passada.
Memorando secreto da CIA, revelado em 2018, aponta que Geisel autorizou a execução sumária de vários opositores da ditadura militar.
O Ministério Público Federal já recomendou que o memorial seja desativado.
Na recomendação, os procuradores da República Enrico Rodrigues de Freitas e Fabiano de Moraes elencam uma série de opositores políticos que foram torturados, mortos e que tiveram os corpos desaparecidos quando Geisel presidiu o país.
E destacam que após a publicação do relatório da Comissão Nacional da Verdade, em 2014, com os nomes dos perpetradores de direitos humanos é inconcebível homenagens desse tipo.
“Ainda mais grave e injustificável a decisão de homenagear agente público reconhecidamente responsável por tais violações”, diz trecho da recomendação.
Fascistas
Segundo o historiador e presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke, a mantenedora da Universidade é bancada pelo empresariado da região.
“Seu eu fosse um gentleman, diria que são todos conservadores, mas na verdade eles têm uma tendência, uma pendência para o fascismo”, revela.
Sobre a homenagem ao general ditador, Krischke crava: “É acintosa e ofensiva à democracia. Um gesto de saudosismo da ditadura, que beneficiou esses senhores que mantêm a Universidade. São saudosistas, além de fascistas”.
“Tenho esperança de que o clamor da sociedade faça com que recuem.”
Ele ressalta que homenagens com esse caráter ainda ocorrem no país, porque não há políticas públicas de memória.
“No Brasil temos uma política pública de esquecimento. É o único país da região em que nenhum desses criminosos de lesa-humanidade receberam qualquer tipo de punição. Crimes permanentes e absolutamente imprescritíveis. Essa é a jurisprudência internacional.”
“Aqui até o Supremo diz que a Lei de Anistia (que anistiou torturadores) está vigente. É um absurdo. No Brasil não houve transição, mas transação. Um acordo que garante a impunidade”, critica.
Krischke classifica a homenagem a Geisel como um “assassinato da memória” dos que combateram a ditadura militar.
Prefeito apoia homenagem
O prefeito de Bento Gonçalves, o bolsonarista Diogo Segabinazzi Siqueira (PSDB), afirma em vídeo divulgado em sua rede social, que apoia a homenagem ao general ditador.
Em uma clara afronta ao Ministério Público Federal, ele antecipa que pretende manter o memorial na cidade, caso a Universidade cumpra a determinação do Órgão.
“Se essa instituição de ensino acatar a recomendação do Ministério Público Federal, eu terei a maior defesa possível para manter esse memorial aqui no nosso município.”
Geisel nasceu em Bento Gonçalves em 1907. Era evangélico e frequentava a Igreja Evangélica de Confissão Luterana.



