Apoie o holofote!
Busca Menu

VITÓRIAS

Iphan tomba provisoriamente prédio onde funcionou DOI-Codi do Rio e justiça de SP suspende demolição do Presídio do Hipódromo

Vista parcial do prédio do 1° Batalhão do Exército, onde funcionou o DOI-Codi do Rio durante a ditadura militar Foto: Tania Rego/Agência Brasil

27 de maio de 2026 - 23h04

Por Lúcia Rodrigues

Duas importantes vitórias, embora parciais, foram conquistadas, neste mês, na área da memória, verdade e justiça.

A primeira, veio com a decisão do Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, pelo tombamento provisório do complexo militar onde funcionou o DOI-Codi do Rio de Janeiro durante a ditadura militar.

O local é considerado o principal centro de tortura do Rio, onde milhares de presos políticos foram torturados, vários deles mortos, como é o caso do ex-deputado Rubens Paiva, que até hoje não teve os restos mortais devolvidos à família pelo Exército.

O prédio imponente e sinistro da rua Barão de Mesquita, 425, na Tijuca, zona norte da capital carioca, onde até hoje funciona o 1° Batalhão da Polícia do Exército, teve o terreno adquirido pela Coroa, no Brasil Império, em 1857, para a construção de um hospital militar.

A destinação dada, no entanto, pela força terrestre das Forças Armadas ao local na ditadura militar foi outra.

Por ali passaram médicos, sim, mas não para salvarem vidas.

Apenas para garantir que os presos políticos permanecessem vivos para que os torturadores continuassem a arrancar informações com choques elétricos em vítimas penduradas de ponta-cabeça no pau de arara ou amarradas na cadeira do dragão.

Aliados da ditadura, esses homens de jaleco branco eram parceiros inseparáveis dos de coturno preto nos centros de tortura.

Quem viveu na pele esse período da repressão foi o publicitário e articulista de Holofote, Manoel Cyrillo de Oliveira Netto.

Vice-comandante da ação que capturou o embaixador estadunidense, Charles Burke Elbrick, em 4 de setembro de 1969, foi levado para o DOI-Codi do Rio para aguardar o processo de julgamento.

Foi condenado a quatro anos de prisão, dois, por quebra de imunidade diplomática e dois, por cárcere privado. À época, a Lei de Segurança Nacional não previa pena para sequestros.

Seria condenado ainda em outros três processos, que somariam mais 50 anos de prisão.

Dos 54 anos, cumpriu 10, em regime fechado.

No canto direito, com a mão no queixo, Manoel Cyrillo de Oliveira Netto Foto: Reprodução do jornal O Dia

Manoel foi preso na sequência da libertação do embaixador, em 30 de setembro, em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, quando se preparava para sair do país e ir realizar treinamento em Cuba.

Dali foi levado para o DOI-Codi, da rua Tutóia, na zona sul da capital paulista, o principal centro de repressão da ditadura militar, onde foi brutalmente torturado.

Seguiu para o Dops e posteriormente para o presídio Tiradentes, ambos no centro da cidade.

De lá, a repressão o levou para o Rio, algemado ao acento do avião.

Foi encaminhado pela escolta militar para o DOI-Codi da rua Barão de Mesquita, onde funcionava o centro clandestino de tortura do regime ditatorial.

“Eu estava há uns quatro, cinco meses no Tiradentes, e voltei à condição de preso clandestino. Minha mãe foi para Rio, mas não podia me visitar nem deixar nada para mim. Fiquei incomunicável meses e meses, à espera das audiências na Auditoria de Guerra”, recorda.

Os primeiros dias no Rio, ele descreve como terríveis.

“Jogaram a gente no corredor em frente à sala de tortura, sentados no chão, ouvindo permanentemente os gritos de quem estava sendo torturado. E quando os torturadores entravam ou saíam da sala, aproveitavam que estávamos no chão, e chutavam a gente, davam porrada na cabeça, pontapé na barriga. Uma loucura! E ainda mais vendo aquelas cenas horríveis de tortura.”

De acordo com ele, nesse momento estavam ocorrendo muitas quedas (prisões) de guerrilheiros do MR-8.

“O corredor em que nós estávamos em frente à sala de tortura, acabava em outro pequeno corredorzinho, em formato de um T, perpendicular ao nosso, onde estava sendo torturado o (historiador) Daniel Araão Reis, o pessoal do MR-8.”

“Quando começou a cair gente da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), nesse momento me tiraram do corredor e me levaram para uma cela coletiva grande, na parte de cima (do prédio), onde ficava todo mundo.”

Ele relembra que ainda não havia celas individuais no DOI-Codi carioca. Foram sendo construídas naquele processo.

O convívio na cela coletiva criou uma relação de companheirismo com guerrilheiros de outras organizações políticas.

“A gente acabou dando uma força para o pessoal que estava sendo torturado, porque a gente já tinha experiência de tortura, passamos dicas de comportamento, coisas de cadeia. Ensinamos eles a fazerem agasalhos para o frio com folhas de jornal, porque precisava de proteção, porque só de cueca era frio, e eles estavam sob tortura.”

“Quando eu ainda estava na cela coletiva, chegou o (Fernando) Gabeira, estava ferido à bala. Conversamos muito. Foi o único período em que fiquei preso com ele. Mas essa situação durou pouco, porque a repressão subdividiu o espaço e começou a fazer celas individuais ou para dois presos. E eu fui para uma dessas.”

Manoel relembra que um dos presos que estava sentado com ele no chão, era o jornalista Arthur José Poerner, que não tinha envolvimento político com nenhuma organização, mas foi preso por ter escrito o livro O Poder Jovem.

“Davam porrada na minha cabeça, nas minhas pernas, chutavam minha barriga, e faziam o mesmo com ele.”

Tombamento

Ele comemora o tombamento do DOI-Codi pelo Iphan: “Achei importantissimo, mesmo que parcial”.

Mas teme, no entanto, que passado tanto tempo do pedido de tombamento, muita coisa pode ter sido alterada pelo Exército.

O pedido foi formalizado pelo Ministério Público Federal e pela Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro em 2013.

Sua efetivação se arrasta há mais de uma década, porque o Exército cria uma série de empecilhos para atrapalhar o tombamento do prédio.

“Não foi na minha época, mas no DOI-Codi do Rio tinha uma ‘geladeira’ (uma das técnicas de tortura) que alternava o ambiente de extremo calor para extremo frio, um frio glacial. Esse esquema de aquecimento e congelamento já deve ter sido removido. Já apagaram as provas. Mas podem ter vestígios.”

Para Manoel, a antropologia forense pode ser uma importante aliada na busca pela verdade.

“Pode encontrar muita coisa ainda. O trabalho de antropologia forense que está sendo feito em São Paulo, com a professora Deborah (Neves) e um pessoal altamente competente, já fez descobertas incríveis, como a identificação da cela onde simularam o sucídio por enforcamento do jornalista Vladimir Herzog. Isso pode ser ampliado para o Rio.”

Manoel enfatiza que é preciso lutar pela abertura imediata do antigo DOI-Codi à visitação.

“Enquanto perdurar o tombamento parcial, temos de lutar para entrar nem que seja a força, ter livre acesso para visitar as instalações e trazer grupos de todo o Brasil e até internacionais.”

Com o tombamento provisório, fica garantido que a partir de agora a edificação não poderá ser demolida nem sofrer nenhum tipo de reforma que altere e descaracterize o espaço onde a repressão agiu impunemente.

O objetivo de entidades de defesa de direitos humanos é transformar o local em um memorial aberto à população em homenagem aos que resistiram à ditadura militar e para que a verdadeira história do Brasil seja conhecida pelos brasileiros.

Hipódromo

Liminar da 10ª Vara de Fazenda Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo suspendeu, na última segunda-feira, 25, a autorização para a demolição do antigo Presídio do Hipódromo, onde a repressão trancafiou presos políticos durante a ditadura militar.

Em 2024, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) vendeu o terreno com mais de quatro mil metros quadrados, onde fica o ex-presídio, na rua do Hipódromo, 600, no Brás, centro da cidade.

A ação movida pela vereadora Amanda Paschoal (PSOL-SP) e pelos ex-presos políticos Ivan Seixas, Amelinha Teles, Maurice Politi e a historiadora e professora da Universidade do Estado de Minas Gerais, Janaína de Almeida Teles, foi acatada pela juiza Maricy Maraldi.

Em sua decisão, ela determina que a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento da Prefeitura de São Paulo não receba, não autue e não dê andamento a nenhuma solicitação que requeira a demolição do antigo Presídio do Hipódromo, até o trânsito em julgado da ação. 

A magistrada determina ainda que a Secretaria, no prazo improrrogável de cinco dias úteis, deve apresentar entre outras solicitações, a identificação completa do proprietário, além da identidade da construtora, incorporadora e empresa envolvidos no pedido de demolição do Hipódromo.

Detalhe da fachada do Presídio do Hipódromo, em São Paulo Foto: Reprodução

História e cultura

Além de registrar a história de uma época, o prédio também tem relevância cultural. Foi rodado lá, por exemplo, O Beijo da Mulher Aranha, de Héctor Babenco.

O ex-presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, Adriano Diogo, passou um ano e meio preso no Hipódromo.

“Cheguei lá em junho de 1973, tinha ficado 90 dias na Oban (Operação Bandeirantes), 45, no Dops. E de lá, segui para o presídio. Fui no mesmo carro que (o advogado) Idibal Pivetta. Quem levou a gente até o carro foi o torturador Carlinhos Metralha.”

“No Hipódromo tinham cinco celas de presos políticos. Cada cela era de uma organização. Mas a minha era mista, tinha PCdoB e ALN. Estavam comigo, o César Teles, Genoíno, Ivan Seixas, Lalau, Paulo Frateschi. Na cela do Partidão (PCB) ficava o (Raphael) Martinelli. Era um presídio muito frio, úmido, naquela época principalmente.”

Adriano acompanhou na última segunda-feira, 25, a reunião do Conpresp, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo, para solicitar que o órgão encaminhasse o tombamento do ex-presídio.

Controlado pelo prefeito, Ricardo Nunes (MDB), os conselheiros ignoraram o apelo e se negaram a levantar durante o minuto de silêncio em memória dos mortos e desaparecidos políticos da ditadura, proposto por uma pessoa da plateia.

“É horrível o apagamento da memória. É intencional. Não é só especulação imobiliária” critica.

Internacional

O curador do Museu da Língua Portuguesa, César Pivetta, filho do advogado de presos políticos Idibal Pivetta, concorda com Adriano.

“A memória é apagada, para que não se conheça o passado e se repitam novamente os mesmos erros.”

Ele não chegou a visitar o pai na cadeia, porque ainda não havia nascido, mas conhece bem a trajetória de Idibal atrás das grades.

“Quando meu pai chegou no presídio, todo mundo ficou desesperado. Pensaram, agora ferrou, nosso advogado está preso. E os caras (da repressão) disseram: ‘Agora quero ver quem é que vai soltar vocês'”.

Curiosamente, Idibal continuou exercendo a profissão dentro da prisão. Quando chegou, foi recebido pelo diretor do presídio, que o reconheceu e perguntou o que ele fazia ali. Haviam jogado bola juntos na adolescência.

O encontro rendeu passaporte para uma cela especial, com direito a máquina de escrever, em que ele produzia peças jurídicas em favor dos presos comuns do Hipódromo. “Soltou um monte de gente de dentro da cadeia”, comemora César.

Quando o pai foi libertado, os presos políticos cantaram a Internacional.

“Os carcereiros começaram a meter pancada, falando para parar de cantar. Mas uma pessoa continuou assobiando a Internacional enquanto ele saía. Depois souberam que era a Rita Lee (que estava presa por uso de drogas).

César recorda que o pai contava que a família levava a comida para ele, mas os guardas comiam.

Tortura e morte

Amelinha Teles é outra presa política que ficou no Hipódromo. “Cheguei no dia 23 de junho de 1973 e fiquei até agosto. Depois fui para o Carandiru.”

Durante o período, presenciou o assassinato sob tortura de um preso comum. Dentro do presídio também funcionava uma delegacia de polícia.

“Na delegacia do presídio, eles torturavam e matavam. Eu vi um caso. O cara não quis assinar o flagrante, e foi morto. Tem gente que é corajosa demais. A gente viu horrores ali. Mandavam a Tropa de Choque jogar água nas celas.”

Ela recorda a violência sofrida pelas mulheres que lutavam por direitos dentro da prisão.

“Eram punidas de uma forma cruel. Levavam para o Juqueri (então manicômio judiciário) e davam medicamentos. Elas voltavam completamente abobalhadas. Só de lembrar, dá vontade de chorar.”

“Ali se tinha a nítida impressão de que a  escravatura não teve fim, porque essas mulheres eram negras, os homens eram negros, nordestinos. Nós éramos a elite dentro do presídio, a maioria era branca e de classe média”, frisa.

A procuradora do Estado, Maria Luiza Bierrenbach, era advogada de presos políticos à época.

“Fui diversas vezes ao Presídio do Hipódromo. O prédio tem valor histórico e de memória. Deveria ser usado como um museu de memória.”

Ela conta que Rita Lee era cliente do escritório em que ela trabalhava, mas era defendida pelo advogado Arnaldo Malheiros, que fazia a defesa de presos comuns.

Leia também

Documentos da ditadura militar podem ter sido jogados pelas janelas do prédio do IML no RJ; vídeo

Justiça condena Marinha por racismo institucional contra João Cândido, o Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata

Manoel Cyrillo: Mais de seis décadas após golpe militar, ainda não se sabe exatamente quando a ditadura terminou…


Comentários

Maria Aparecida Costa Cantal

28/05/2026 - 02h56

A excelente reportagem de Lúcia Rodrigues dá muito bem conta de descrever o que foi o Presídio do Hipódromo. Sou ex-presa política, passei 3 anos e meio nos cárcere da ditadura: Presídio Tiradentes, Hipódromo e Carandiru. Além das passagens, quando de minha prisão, pelos centros de tortura do Doi-Codi e Deops de São Paulo.
Não há presídio bom. Mas o Hipódromo foi de todos o pior. Atrás de sua fachada aparentemente neutra, por dentro era um lugar gelado, cinzento, tenebroso. Gritos de tortura de presos comuns noite adentro, noite após noite. Jatos de água fria contra eles nas noites que pareciam sempre geladas, noite após noite. Um pesadelo sem fim. Eu ainda hoje guardo a impressão de estar em uma cela solta no ar, cercada por grades e paredes cinzentas, úmidas, frias, misturadas a gritos de dor. Era impossível dormir. É impossível esquecer ainda hoje: Hipódromo, presídio escuro, assombrado por histórias cruéis, um presídio da Ditadura. Penso que deve permanecer em pé, lembrando às gerações presente e futuras os tempos sombrios e cruéis da ditadura de 64. Para que esses tempos nunca mais se repitam.

Deixe seu comentário

Outras matérias